Pesquisar neste blogue

segunda-feira, 6 de abril de 2020

A LENDA DO PRÍNCIPE ABDALÁ DE MONSARAZ


A lenda do príncipe Abdalá de Monsaraz que, morreu por amor à filha do Moleiro Almir

Em quase todas as terras do Sul, encontramos lendas sobre mouros e mouras, umas encantadas outras desencantadas e, também na Villa de Monsaraz, povoada por esse povo, cerca de quatro séculos, existem lendas dessa época, entre as quais, a que descrevemos.
História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz



Nos tempos do reino Mouro de Badajoz, 1009 – 1150, quando reinava o rei Abdalá Ibne Maslam Almançor, o mesmo, nomeou o seu filho, o prínicpe Omar, governador e senhor das terras de Monsaraz, onde residia com a sua família, sendo os seus filhos educados aqui, pelos melhores mestres, vindos da Corte de Badajoz!
O filho mais velho, o príncipe Abdalá que, ostentava o mesmo nome do seu avô, era um rapaz alto, magro, moreno, atlético, de olhos verdes, senhor de grande beleza, muito cobiçado pelas princesas deste reino e, dos reinos vizinhos, mas nem Abdalá, nem os irmãos e irmãs, podiam escolher as noivas e noivos, porque, os mesmos, eram escolhidos pelas famílias, a fim de reforçar a amizade entre os reinos, era um negócio familiar, também, com a finalidade, de se evitarem guerras entre eles!
O príncipe Abdalá, já estava prometido a uma princesa do reino de Mértola, chamada Aysha e, seria impensável ele e a família não cumprirem o contrato, seria uma desonra e, podia desencadear uma guerra, pelo que, estava fora de questão o príncipe não aceitar a noiva negociada!
O seu casamento foi anunciado e, a partir desse dia, o príncipe começou a ficar triste, porque, embora ainda não conhecesse pessoalmente a sua noiva, a descrição que lhe faziam dela, não era nada agradável, por isso, tinha pesadelos onde ela lhe aparecia numa figura aterradora, mas surgia entre eles, uma linda rapariga que o salvava das garras da noiva e o deixava muito feliz!
O príncipe, andava cada vez mais triste e recolhia-se nos seus aposentos, no castelo de Monsaraz, durante semanas sem sair, começando a preocupar a família! Começou por ser observado pelos físicos (médicos) de Monsaraz que, não lhe encontravam nada, até que, o governador mandou chamar os físicos da Corte que, concluíram o mesmo, o mal do príncipe era na alma, eram nervos, por isso, receitaram-lhe algumas mezinhas e, principalmente, muitos passeios pelos campos de Monsaraz!
As mezinhas começaram logo a fazer-lhe bem aos nervos, começou a fazer passeios diários a cavalo, pelos arredores de Monsaraz em companhia dos seus mestres e amigos e, no dia a dia começaram a verificar-se melhoras! Os seus passeios eram cada vez mais longos e alargados em termos geográficos, chegando até ao rio Guadiana, onde se sentia em paz, também, devido aos aromas dos perfumes da natureza!
Num lindo dia de primavera, o príncipe Abdalá, foi fazer o passeio habitual, montando o seu cavalo branco e, pediu aos seus mestres para o deixarem só, sentia-se melhor sozinho, foi descendo pelas margens do rio Guadiana, envolto nos seus pensamentos, sobre o seu casamento com aquela figura horrível que lhe aparecia nos pesadelos! Para fugir a esse casamento, pensou em se alistar nos exércitos do reino do seu avô, mas isso, não resolvia nada, mesmo assim, tinha de casar, naquele momento, estava a passar junto do Moinho do Mendonça, o cavalo fitou as orelhas dando sinal da presença de alguém, o príncipe interrompeu os seus pensamentos, levantou os olhos e viu na sua frente uma linda rapariga a cantarolar e a dançar, estendendo roupa por cima das tamujeiras, puxou as rédeas ao cavalo para parar e, ficou abismado com o que via, era ela, a rapariga que o salvava da noiva nos pesadelos! A rapariga pressentiu que estava a ser observada, virou-se e, ficou com o seus lindos olhos fixos nos olhos verdes do príncipe Abdalá! Não disseram uma palavra, ficaram naquela posição durante alguns segundos, até que, ela sabendo quem ele era, baixou os olhos em submissão e, quando os levantou, o príncipe tinha desaparecido.
O príncipe Abdalá entrou no castelo de Monsaraz e, fechou-se nos seus aposentos, deixando os familiares intrigados, porque, estavam convencidos que ele tinha melhorado! O governador chamou os mestres para saber o que tinha acontecido durante o passeio, mas eles, como não o acompanharam, não tinham nenhuma explicação para o sucedido!
O príncipe ficou três dias, sem se levantar da cama, aumentando a preocupação da família que, não descortinava a causa de tamanha tristeza e, quando pensavam que ele já estava bem, a situação tinha-se agravado, devido a ter encontrado a linda rapariga que, o salvava das garras da noiva indesejada nos pesadelos e, pela qual, estava loucamente apaixonado! Quando se recolheu, passou algumas horas a pensar quem seria a rapariga tão simples e tão formosa e, concluiu que, pelo sítio onde estava, só podia ser uma filha do Moleiro Almir, mas não podia divulgar nada, porque, sendo uma humilde subdita, ela podia correr risco de vida!
O príncipe esteve muito doente, com febres altas que, o faziam delirar, mas ninguém percebia nada do que dizia! Depois de passar alguns dias na cama, tomando as mezinhas dos físicos, começou a melhorar, até que, um dia levantou-se, preparou-se e mandou selar o cavalo branco, pouco comeu e, informou que ia dar o seu passeio, mas não queria ninguém por perto, mas o governador, mandou que, os mestres o seguissem à distância, porque, estava muito fraco e podia precisar de ajuda, mas ele apercebeu-se e, despistou os seus seguidores, quando deu por si, estava no Moinho do Mendonça, deixando o Moleiro Almir e a sua família, muito surpreendidos, porque, sabiam quem ele era, só não sabiam o que queria dali! Como ele esperava, lá estava a rapariga que, como todos, foi apresentada pelo pai, a sua filha chamada Alita! O príncipe, não se conteve e repetiu o seu nome, Alita e fixou os seus olhos nos dela, de tal maneira que, toda a família percebeu a sua intenção! A Alita, também sabia e, sentiu-se incomodada, mas desde o dia do seu encontro, ficou perdida de amor por ele, embora, sabendo que, era um amor impossível!
O príncipe Abdalá, como não tinha outra justificação para estar ali, mostrou interesse em saber como funcionava o Moinho ou Pizão, tentando ganhar a confiança da família da Alita, mas isso, não era necessário, porque, o seu interesse por ela, era uma grande honra para a família, mas sabiam que, no caso do governador de Monsaraz, não achar graça a essa paixão entre eles, podia dar-se uma desgraça na família!
Quando o príncipe Abdalá chegou a Monsaraz, depois desta visita, parecia curado, a família ficou surpreendida, sem perceber o que tinha acontecido! As suas visitas ao Moinho do Mendonça passaram a ser diárias, assim como, os encontros com Alita, com a cobertura das suas irmãs que, também andavam muito felizes por ela andar envolvida com um príncipe! O governador, era informado sobre as voltas que o filho dava, mas estava longe de imaginar, qual era o motivo que o levava, diariamente, ao Moinho do Mendonça, pensou que, era mais um devaneio na cabeça do filho e, se ele andava bem, deixá-lo andar!
O príncipe Abdalá, andava tão feliz que, não se lembrava da data do seu casamento, o qual, estava cada vez mais próximo e, foi quando a família o informou, sobre o começo dos preparativos que, ficou destroçado! Sabia que, não se podia negar a casar com Aysha, ou desonrava a sua família, incluindo o reino de Badajoz, onde o seu avô continuava a reinar!
No dia seguinte, no encontro com Alita, contou-lhe, o dilema em que se encontrava e, depois da troca de ideias, nenhuma fazia sentido, acabando por cair nos braços um do outro a chorar como crianças!
No dia seguinte, chegaram a Monsaraz, familiares e gentes da Corte de Badajoz que, iniciaram os preparativos para o casamento do príncipe, mas ele piorou e fechou-se nos seus aposentos, ficou novamente na cama e, à medida que o fatídico dia se aproximava, mais doente ele ficava, mas mesmo doente, tinha de casar!
Numa sexta-feira de Março, um mês muito chuvoso, amanheceu um lindo dia de sol, o príncipe, para alegria da família, melhorou consideravelmente, levantou-se, comeu alguma coisa, preparou-se, mandou selar o cavalo branco, informou que, ia dar o seu passeio habitual e não queria ninguém atrás! Quando saiu de Monsaraz, apercebeu-se que, os mestres o seguiam, mas como conhecia muito bem o terreno, seguiu na direção da serra da Barrada, mas deu umas voltas e despistou os mestres, eles deixaram de o ver e pensaram logo, que o seu destino era a casa do Moinho do Mendonça, para onde seguiram, mas foram enganados, o príncipe chegou ao rio Guadiana que, tinha grande caudal, meteu o cavalo à água, começando este a nadar sem dificuldade , mas quando ia a meio do rio, caiu do cavalo e desapareceu envolto na corrente!
Os pescadores que por ali andavam, assim que o viram entrar na água, não o perderam de vista, ficaram admirados, mas pensaram que ele ia atravessar o rio para seguir para Badajoz, assim que, o príncipe caiu na água, foram logo a nadar e em barcos em seu auxílio, mergulharam com risco de vida, durante horas, por toda a área onde o tinham visto desaparecer, mas não o encontraram!


As pessoas que andavam a trabalhar por perto, ouviram o pedido de socorro dos pescadores e foram a correr a ajudar, procuraram o príncipe, dentro e fora de água, pelo rio abaixo, mas não encontraram nenhum sinal dele! A notícia chegou rapidamente a Monsaraz, acorreram os familiares e os homens do governador para o procurar, mas só encontraram o seu cavalo branco, na manhã seguinte, a pastar, serenamente, na margem esquerda do rio Guadiana, na direção do Moinho do Mendonça!
Durante os dias e semanas seguintes, o príncipe Abdalá, continuou a ser procurado pelo rio Guadiana abaixo, até às terras dos reinos de Mértola e dos Algarves, mas sem sucesso, era um mistério para alguns que, diziam ter sido o afogamento encenado para fugir, porque não batia bem da cabeça, mas o príncipe não fugia, abandonando o seu grande amor, a Alita!
A causa do triste acontecimento, só a Alita a sabia e, passou por grande desgosto, mas foi muito apoiada pela família, acabando por, mais tarde, lhe contar o segredo, que levou o príncipe ao suicídio no rio Guadiana e, todos concordaram que, ficava só entre eles, não podia chegar aos ouvidos do governador de Monsaraz, porque, decerto, seria ela considerada a culpada e condenada à morte!
A seguir, a Alita disse-lhe que, ainda havia outro segredo, não menos perigoso e que, também, não podia chegar aos ouvidos da família do príncipe, então, a Alita contou que esperava uma criança do príncipe! A família ficou alarmada, mas combinaram que tinham de a proteger e traçaram um plano, ficaria escondida em casa, diziam que estava doente e como uma das irmãs também esperava uma criança, diriam que tinham nascido gémeos, ficando essa criança como sendo filha da sua irmã!
O plano correu bem e as crianças nasceram com alguma diferença de dias, mas isso foi resolvido, eram ambos do sexo masculino e foram criados como irmãos, mas à medida que o filho da Alita crescia, mais desconfiadas ficavam as pessoas, porque, a sua aparência com o príncipe Abdalá era evidente de mais e, exclamavam: O gaiato é tal e qual o príncipe Abdalá! E o rapaz respondia: Sou um príncipe Moleiro! Outras pessoas comentavam: Só lhe falta o cavalo branco, para ser o príncipe! E ele respondia: Não tenho cavalo branco, mas tenho a burra branca do Moinho! As pessoas achavam graça, mas diziam que havia ali algum mistério por desvendar, deixando a suposta mãe em maus lençóis!
O filho de Alita foi criado no Moinho do Mendonça, aprendendo com o avô, todas as artes do Moinho e, ao mesmo tempo, outros trabalhos na agricultura, era dotado de grande inteligência, educado, afável e, sempre pronto a ajudar os que mais precisavam!
A vida da família decorria normalmente, até que, um dia a Alita adoeceu, pensaram que era doença passageira, mas não era, o seu estado de saúde agravou-se, rapidamente e, como se sentia cada vez pior, chamou a família e disse-lhe que, não podia partir sem contar toda a verdade ao filho, ainda foi contrariada, mas ela disse que se não o fizesse, não partia em paz! Perante o seu derradeiro desejo, a família, concordou e o avô foi encarregado de o preparar, sem lhe contar o que devia ser contado pela sua mãe!
O rapaz chegou à cabeceira da cama de sua mãe que, ele pensava ser a tia, a qual, já o esperava e, a conversa começou, imediatamente, porque, a hora da Alita partir estava próxima e, podia não ter tempo de deixar tudo esclarecido! A Alita contou-lhe todos os pormenores sobre o seu grande amor pelo príncipe Abdalá e ele por ela, o que se tinha passado até ao dia do seu nascimento, assim como, os motivos, porque a família lhe tinha escondido a sua identidade! Depois de ouvir a mãe com muita atenção, compreendeu o motivo do mistério, abraçou-a e não a largou até à sua partida, a qual, minutos depois, faleceu nos seus braços.



No dia seguinte, com muito pesar, levou a mãe à sepultura e recolheu-se em casa, mas como já andava a pensar em partir para Badajoz, depois de, uma conversa com a família, pediu um pão ao avô, meteu-o num saco, pegou numa manta, despediu-se de todos, com a promessa que voltaria e, partiu pelo rio Guadiana acima, até à capital do Reino! Como sabia que, o reino de Badajoz estava a recrutar gente para o seu exército, dirigiu-se ao Castelo, apresentou-se e indicaram-lhe uma fila, onde estavam mais rapazes para o mesmo fim! Quando se movimentava para esse lugar, o rei que observava os rapazes que chegavam, teve uma visão, aquele rapaz parecia-lhe o seu sobrinho Abdalá, no entanto, sabia que isso não era possível, mas estava perante um mistério, por isso, mandou-o chamar à sua presença!
O rei perguntou-lhe quem era e de onde vinha e, quando o rapaz respondeu que, era ajudante de Moleiro, natural de Monsaraz, o rei estremeceu, porque, ficou sem dúvida que o rapaz era um bastardo, filho do seu sobrinho Abdalá! Mandou que voltasse à fila do recrutamento e, disse ao seu mestre de guerra que, aquele rapaz era especial, mas devia passar pelo mesmo treino de todos os outros!
O rapaz começou a dura instrução militar que, chegando, sempre ao fim de cada fase com grande êxito o que, não passavam despercebidos ao rei! Depois de demonstrar que, era um dos melhores infantes, do esquadrão, um dia foi chamado pelo mestre de guerra que, lhe entregou um cavalo para aprender a montar, era um presente do rei, por ele lhe ser tão dedicado e afeiçoado! O rapaz que montava as burras do Moinho desde criança, em pelo, sem albarda, montou o cavalo, deixando o mestre de guerra abismado, pela sua destreza e valentia, no domínio do animal, porém a rigorosa instrução na cavalaria continuou por algum tempo, mas à medida que ultrapassava as metas definidas recebia uma promoção, tendo começado em soldado de cavalos!



O rei, por vezes ia observá-lo e ficava orgulhoso, mesmo sem o reconhecer, ele era um dos seus! Quando chegou ao nível de mestre de guerra, ou mestre de campo, em termos de sabedoria, foi autorizada a sua incorporação no exército real, com o posto de tenente, comandante de uma companhia que, começou logo por se destacar nas batalhas contra os cristãos!
Nesta época, a guerra, era contra os cristãos que, atacavam os pequenos reinos do Al Andaluz, descendo do norte da Peninsula Ibérica e, foi contra eles que o tenente se destacou, tornando-se um temível guerreiro!
Quando a situação estava mais calma nas fronteiras do reino, as suas tropas recolhiam a Badajoz, entretanto, foi nomeado, mestre guerreiro do reino e, com a justificação de reconhecimento da fronteira do reino de Badajoz, descia o Rio Guadiana com o seu esquadrão de 1.000 cavalos, até Monsaraz e, visitava a família no Moinho do Mendonça!
Este mestre guerreiro mouro, acabou por ser morto às mãos do exército cristão comandado pelo notável cavaleiro espanhol Múnio Afonso, Alcaide-Mor de Toledo, porém, deixou para sempre, o seu nome em Monsaraz, perto do lugar onde nasceu e que, os cristãos, não tiveram coragem de apagar, ainda hoje, lá está a Ribeira com o seu nome, Azevel, filho do príncipe Abdalá de Monsaraz e da Alita, filha do Moleiro Almir, do Moinho do Mendonça!
Parte das ossadas do seu pai, o príncipe Abdalá, foram encontradas no fim do verão do ano do seu desaparecimento, no rio Guadiana, no lugar do pulo do lobo, no reino de Mértola, muito próximas da sua noiva a Aysha dos seus pesadelos!
Os físicos (médicos) da Corte de Badajoz, foram chamados a Monsaraz e, como tinham os seus dados clínicos completos, através de medidas ósseas e outras técnicas de então, garantiram que, eram mesmo dele, ficando os seus restos mortais sepultados no castelo de Monsaraz, onde, ainda hoje se encontram.
FiM
"Texto de Manuel Correia Fotos Isidro Pinto"




terça-feira, 31 de março de 2020

AS TRADIÇÕES DE ANTIGAMENTE A PÁSCOA





VAMOS RECORDAR TRADIÇÕES.
A Páscoa 
Adicionar legenda

Talvez alguns de nós ainda se lembrem, como era vivida nomeadamente a Segunda Feira de Páscoa, dia de grandes arraiais onde as famílias e amigos se descolavam para locais pré determinados e que na sua grande maioria muito diferem dos de hoje e onde se viviam enormes arraiais onde não faltavam os toques de concertina e os respetivos bailaricos, assim como as barraquinhas e carroças de comes e bebes, ir comer o folar da páscoa ou a pintainha como muitos de nós miúdos dizia-mos, faziam de este dia para a época um dia muito especial.


Não vão muito longe os tempos em que as dificuldades de transporte limitavam a mobilidade das pessoas fazendo assim que esses locais de confraternização fossem por inerência das condicionantes muito mais perto dos seu locais de residência, por essa razão queremos hoje relembrar aqui alguns lugares emblemáticos da nossa freguesia onde se viveram enormes arraiais como é o caso do Alto de S Bento, que concentrava grande parte da população de Monsaraz e Arrabalde, e do Convento da Orada que pela sua localização e facilidade de acesso trazia até aqui gente de toda a freguesia, muito vagamente ainda me recordo, de ver todo esse enorme largo cheio de carroças e churriões e das respetivas barraquinhas de comes e bebes. 

Com o aparecimento e posterior vulgarização dos transportes motorizados, tudo isso se foi alterando, e já na década de setenta um dos locais mais em moda principalmente para nós jovens dessa época passou a ser a zona circundante á Ermida de S. Pedro dos Olivais já no concelho de Mourão. È BOM RECORDAR AS NOSSAS TRADIÇÕES

"Texto e foto Isidro Pinto"








               










segunda-feira, 23 de março de 2020

O SERRANO E AS SEMENTES DE MANJERICO

O SERRANO E AS SEMENTES DE MANJERICO


Monsaraz tinha á época duas Tabernas o Bragança (posterior Alcaide) e o Pintassilgo (posterior Lumumba) sendo que a maioria dos Montesarenses salvo raríssimas exceções eram clientes de ambos, as tabernas do ponto de vista social desempenhavam um papel importantíssimo não só em Monsaraz mas em todas as aldeias, eram um elo de ligação e socialização entre as pessoas nomeadamente a população masculina, era um hábito enraizado vir do trabalho e passar pela taberna, daí o termo de vinho do trabalho e que não raras as vezes descambava em cante Alentejano. O Outono mostrava-se prometedor para semear os quintais, já havia chovido e com as terras ainda quentes era rápida a germinação, lembrou-se disso nesse dia o Serrano e entre um copo e outro copo disse ao Bragança, ó Bragança !!! Eu ando a trabalhar no Barrocal e não posso ir a Reguengos tu vais lá tanta vez devias trazer-me umas sementes de espinafre, parece que há agora uns modernos de folha larga e lá deves arranjar, ó Caeiro está descansado !!! Dizia o Ti Bragança, o dia que lá for já te as trago. Passado alguns dias e estando o Caeiro Serrano na taberna lembrou-se o Bragança da encomenda e disse !! olha Caeiro já fui a Reguengos e tenho aí as sementes dos espinafres que me pediste. Podes-me as dar já, que amanhã é Domingo e tenho vagar para os semear respondia o Serrano, tirou o Bragança debaixo do balcão um pequeno cartucho de papel pardo cheio de sementes que entregou ao Serrano, movido pela natural curiosidade desdobrou um pouco o cartucho e palpou as sementes exclamando !!! e pá estes espinafres da folha larga têm umas sementes esquisitas !!!, logo se apressou o Bragança a responder, então não foi desses que me pediste ? sim, sim, respondeu o Serrano, logo algum engraçadinho ao balcão ironizava, este ano com esses da folha larga até o Burro vai comer espinafres. O tempo foi passando sem que ninguém mais voltasse a falar dos espinafres, até ao dia em que o Serrano devidamente acomodados dentro de um cesto o encheu de manjericos e saiu Monsaraz fora vendendo manjericos. O Bragança TINHA-O ENGANADO COM AS SEMENTES, E EM VEZ DE ESPINAFRES NASCERAM MANGERICOS, não deu o nosso homem parte de fraco e lá foi tentando vender a mercadoria apregoando, MANGERICOS DO ARRABALDE, CRIADOS NA GRAÇA DE DEUS e Como Deus por vezes escreve direito por linhas tortas logo lhe sai ao caminho a Tia Margarida Bragança, Ti Caeiro !! Ti Caeiro !! então a como são os manjericos ? Acordado o preço e com um sorriso contido mas interiormente de orelha a orelha lá consumou o negócio. Parte da vingança estava cumprida, saiu de ali completando o pregão, MANGERICOS DO ARRABALDE / CRIADOS NA GRAÇA DE DEUS / PENSAVAS TU BRAGANÇA / QUE ERAS MAIS ESPERTO QUE EU. Mas não ficaria por aí. Com o Verão a aproximar-se e começando a ser tempo de semear o feijão de meloal (vulgo feijão frade) comentava o Bragança que tinha que trazer de Reguengos feijão-frade para semear, logo se apreçou o Serrano, que nesse dia estava com as delicadezas e respondeu Ó João José Bragança, não precisas, eu já semeei o meu e sobrou-me algum, quando me lembrar já te o trago para cima, e assim aconteceu. Com o tempo de sementeira quase a esgotar-se e os calores estivais a chegarem, queixava-se o Bragança que havia semeado e ressemeado várias vezes o feijão e este não nascia, SORRIA MALICIOSAMENTE O SERRANO, JÁ QUE LHE HAVIA DADO UMA MUITA LIGEIRA FERVURA, PARA LHE TIRAR A CAPACIDADE DE GERMINAÇÃO. A vingança estava cumprida, ainda hoje quando alguém lhe corre mal os labores agrícolas se usa a expressão ELE OU ELA É COMO O SERRANO, SEMEIA ESPINAFRES NASCEM MANGERICOS. Que saudades desse Monsaraz.


"Texto de Isidro Pinto"



quarta-feira, 4 de março de 2020

A TRADIÇÃO E A CULTURA DE MONSARZ


A TRADIÇÃO E A CULTURA DE MONSARAZ





A tradição sempre fez parte da cultura e da história da nossa terra, das nossas gentes. Monsaraz têm uma enorme devoção pelo seu Santo Padroeiro: Senhor Jesus dos Passos. Todos os anos, no segundo fim de semana de Setembro realiza as Festas em Honra do seu Santo Padroeiro. Estas Festas são seculares e recheadas de tradições muito antigas. Para além do Leilão de Fogaças, aos Domingos vinha sempre um Rancho Folclórico e terminava-se com a atuação do Grupo Coral da Casa do Povo de Monsaraz, e à segunda feira os bailes com o Mário Caeiro (os melhores bailes de que tenho memória sem dúvida). Para minha e nossa memória, o Grupo Coral da Casa do Povo de Monsaraz, terminava as suas atuações com uma moda, que rezava assim:
"Vamos deixar esta gente
Que tão bem nos recebeu
Temos pena que os deixemos
Vomos lhe a dizer adeus

Vomos lhe a dizer adeus
Já chegou à nossa hora
Passem bem e todos os seus
Desculpem vamos embora
Desculpem vamos embora
É com pena que os deixemos
Vamos deixà-los agora
Mas um dia voltaremos.

Viemos aqui cantar
Chegamos em boa hora
Temos pena de os deixar
Desculpem vamos embora."



Foto: Isidro Pinto (Casa do Cante).
Texto: Francisco Pereira.




sábado, 1 de fevereiro de 2020

MONSARAZ DO NASCIMENTO AO DECLÍNIO


MONSARAZ Do nascimento, época aurea, até ao declínio

A sua ocupação data dos tempos pré-históricos, estando registados na região, várias centenas de sítios arqueológicos dos períodos paleolítico, neolítico (megalitismo), calcolítico, Idade do Bronze e Idade do Ferro!


A primitiva ocupação humana de Monsaraz, provavelmente era um castro fortificado, foi mais tarde romanizado e ocupado sucessivamente por muitos povos, visigodos, árabes, moçárabes e judeus!


No século VII/VIII, Monsaraz cairia sob domínio do Islão aquando das invasões muçulmanas que ocuparam grande parte da Península Ibérica. Esta localidade, passou então a designar-se Saris ou Sarish e, a pertencer ao reino Mouro de Badajoz, um dos maiores e principais focos de cultura árabe! (Conhecemos a lenda da Princesa Atília do Reino Mouro de Badajoz que, está sepultada no castelo de Monsaraz)!
O processo de Reconquista Cristã chegou a Monsaraz em 1167, numa expedição que parte de Évora e é liderada por Geraldo Sem Pavor!
A tomada de Monsaraz dura poucos anos, uma vez que em 1173 volta a cair sob o domínio do Califado Almoada, na sequência da derrota portuguesa em Badajoz. Só mais tarde, cerca de 1232, D. Sancho II, com o auxílio dos cavaleiros templários, conseguiu incorporar definitivamente Monsaraz sob o domínio cristão, fazendo a sua doação à Ordem do Templo, que fica encarregue da sua defesa e repovoamento!
O repovoamento da vila de Monsaraz só ocorre no reinado de D. Afonso III e, pela mão do cavaleiro Martim Anes, homem da confiança do rei, a quem competia o combate aos núcleos de resistência árabe e o executar das instituições administrativas, judiciais e militares redigidas no foral de 1276.
Com o Foral, foi criado o Termo (Concelho) de Monsaraz, cujo território é demarcado por D. João Peres de Aboim, senhor da herdade de Portel e da Defesa do Esporão!
Assim, começa o período cristão em Monsaraz e, como tal, dá-se início à edificação das estruturas descritas no foral de 1276!
Apesar das fortificações que se ergueram em Monsaraz durante a terceira guerra fernandina (1381-1382), uma força inglesa toma de assalto a vila e procede ao saque da mesma que, quatro anos depois, voltou a ser invadida por tropas castelhanas! Antes da guerra terminar (1383-1385), Monsaraz viria a ser recuperada por D. Nuno Álvares Pereira! (Conhecemos a lenda das vacas que, ajudaram a conquistar esta Vila)!
Em 1422, por doação de D. Nuno Álvares Pereira ao seu neto D. Fernando, Monsaraz é incorporada na Casa de Bragança, passando a estabelecer, em questões de tributação fiscal, um dos mais valiosos vínculos desta casa ducal portuguesa! (Uma das épocas aureas desta Vila)!
Em 1512, D. Manuel concede um novo foral à vila de Monsaraz, reformando e regulando a vida pública e jurídica do concelho! (A data deste Foral Manuelino é exatamente a mesma do Foral concedido por este Rei à Vila de Juromenha, decerto muito idêntico)!
Após a proclamação da independência face à Coroa espanhola em 1640, a dinastia de Bragança começou a executar uma grande campanha de construção de fortificações modernas na linha fronteiriça portuguesa, da qual Monsaraz não foi exceção!
A edificação de estilo Vauban avança ao redor do castelo, envolvendo a vila com muralhas adaptadas aos tiros da artilharia!
Durante a Guerra Civil portuguesa de 1828 - 1832, também esta Villa se destacou, dando quartel ao Batalhão de Voluntários Realistas de Monsaraz do Corpo de Voluntários Realistas, o qual foi uma organização miliciana portuguesa criada por D. Miguel I para defender o regime absolutista. O Corpo foi criado por Decreto de 26 de Maio de 1828 na sequência da revolta liberal ocorrida no Porto, sendo nomeado seu comandante, D. Nuno Caetano Álvares Pereira de Melo, 6º duque do Cadaval.
A Villa de Monsaraz pagou bem caro, o apoio ao Regime absolutista, uma vez que, o Novo Regime Liberal não lhe perdoou e, indiretamente, começaram a surgir faltas de apoios estruturais, ao contrário da então, Aldeia de Reguengos, sendo esta, uma das principais razões do seu conhecido declínio.
IN CIMAC, com algumas adaptações

sábado, 18 de janeiro de 2020

SERRANO E A FUROA BRANQUINHA DO LUMUMBA


Serrano e a furoa branquinha do Lumumba




Muitas são as estórias que me recordo mas sem dúvida que aquele que mais as protagonizou foi o Serrano, homem simples a quem a sorte nem sempre bafejou. Trabalhador rural exemplar, exímio executante da poda do olival, talvez pela amizade e admiração que ele tinha pelo meu pai sempre recordo o Serrano com muito carinho, bom homem, amigo de todos e muito estimado pela comunidade Montesarense. Muitas são as histórias que se contam dele mas uma das que eu acho mais pitoresca é sem dúvida a do furão, era um fim de tarde de um Dezembro já adiantado e como era hábito nesse tempo vinha-se diretamente da caça para a taberna não era necessário bolsa para as espingardas e muito menos cadeados e não me recordo do mais pequeno incidente com armas nessa época, eram outros tempos, hoje há uma autentica perseguição a quem quiser possuir ou transportar legalmente uma arma, nesse dia provavelmente com alguma sorte já que constava que não era grande atirador trazia o Serrano dois ou três coelhos, a taberna estava quase cheia era a hora do vinho do trabalho, e, Monsaraz nessa época tinha muita gente, o Serrano entrou, tirou de tiracolo a velhinha espingarda que teve o cuidado de abrir e encostar a um canto da taberna, as pernas cansadas pelo calcorrear das Lameiras e serra do Xerez pediam-lhe um lugar sentado, alguém lhe cedeu um lugar numa das pequenas mesas encostadas á parede do lado esquerdo, tirou a cartucheira de onde jaziam pendurados os três coelhos e dispôs-se a abrir o pequeno talego que levara com a merenda onde havia sobrado um pouco de toucinho e um pequeno naco de pão, para acompanhar pediu um copo de vinho, ao balcão, além de muitas outras pessoas estavam também dois guardas da venatória sendo um deles o Ferreira, amigo pessoal do taberneiro Lumumba e conhecido ali de quase todos os presentes, um copo e outro copo e a noite foi chegando, as interpelações ao Serrano eram constantes, alguém dizia, três coelhos para o Serrano só se foi de furão, livra nem pensar, respondia o Serrano, um copo mais e alguém voltava novamente á carga questionando a origem dos coelhos, depois de alguns copos a bexiga já pedia uma ida á casa de banho que neste caso ficava no outro estremo da casa depois de passar o restaurante, longe de imaginar o que lhe iriam fazer dirigiu-se o nosso amigo Serrano á casa de banho tendo ficado por lá um bom bocado. Regressado ao convívio da taberna alguém voltou a insistir na história do furão desta vez é o Lumumba que também diz que três coelhos só de furão, ó Ferreira você como autoridade podia-o revistar e ver se ele fala verdade dizia outro, fazendo jus á sua idoneidade logo se prontificava o Serrano para ser revistado, ó Serrano você importa-se que eu o reviste, dizia o Ferreira, de quê !!!! dizia o Serrano, á vontade, e de imediato se levantou, pronto par a revista e desejando que terminasse aquele clima de suspeição, começou a revista pelos bolsos do casaco que nada de anormal revelaram, toda a taberna estava presa ao desenrolar dos acontecimentos, já agora se não se importa deixe-me lá ver a talega da merenda insistia o Ferreira, sabendo o que se passava pegou nela com algum cuidado abriu-a, meteu a mão dentro, e como que se de um truque de ilusionismo se tratasse tirou de lá uma furoa branquinha, incrédulo o nosso amigo Serrano nem queria acreditar que alguém tivesse tido a coragem de lhe fazer tamanha maldade, nesse momento o seu grande desejo era vingar-se de ato tão ignóbil que o havia desacreditado e exposto a possíveis sanções legais perante tamanha assistência, despiu o casaco que com um gesto brusco atirou para um canto da taberna e dispôs-se para a luta, se é homem que salte prá qui o gajo que me fez isto exclamou!!!!!. Só depois de exaustiva explicação do seu grande amigo Lumumba as coisas acalmaram, já que havia sido este que aproveitando a sua ausência quando da ida á casa de banho, tinha tramado tudo indo buscar a sua furoa branquinha. Ó sócio (já que assim se tratavam em virtude da espingarda com que o Serrano caçava ser emprestada pelo Lumumba) agora pago eu uma rodada e fazemos as pazes exclamava o Lumumba, também está bem, respondia o Serrano, e rapidamente a taberna voltou ao são e fraterno convívio que á época se vivia. Partiu á uns anos atrás deixando Monsaraz mais pobre. 
"Foto e texto: Isidro Pinto"
A imagem pode conter: pessoas sentadas, mesa e interiores

domingo, 5 de janeiro de 2020

CANTAR AS JANEIRAS EM MONSARAZ


Cantar as janeiras

Assim se mantém a tradição em Monsaraz 





As Janeiras (cantar as Janeiras) é uma tradição em Portugal que consiste no cantar de músicas pelas ruas por grupos de pessoas anunciando o nascimento de Jesus, desejando um feliz ano novo. Esses grupos vão de porta em porta.
Ocorrem em Janeiro, começando no dia 1 e estendendo-se até dia 6, Dia de Reis ou Epifania
A tradição passa por as pessoas se juntarem em grupos de amigos ou vizinhos e vão cantar de porta em porta pela vizinhança.
Terminada a canção numa casa, espera-se que os donos tragam as janeiras. (Chouriços, vinho, pão e alguns doces e outras iguarias tipicas de cada zona)
As músicas utilizadas, são por norma já conhecidas, embora a letra seja diferente em cada terra. São músicas simples, habitualmente à volta de quadras simples que louvam o Menino Jesus, Nossa Senhora, São José e os moradores que contribuíram. 
















segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

PRESEPIO DE RUA EM MONSARAZ









PRESÉPIO DE RUA EM MONSARAZ....................É já uma referência da época Natalícia o presépio de rua em Monsaraz que todos os anos continua a atrair milhares de turistas . Composto por 50 figuras em tamanho real  da autoria da escultora Teresa Martins.

Presépio de rua em Monsaraz
Do passado que e presente 
Vai brilhar, de novo, a luz...
Pra mostrar, humildemente,
O renascer de Jesus

Pelas ruas do castelo
Há figuras em cortejo...
Como e simples....Como e belo,
O presépio que aqui vejo,

Na calma que nos enleia
Dentro de ti, Monsaraz!
Sentimos nossa alma cheia
Desse teu sopro de paz!

Parece que, dos espaço,
Magia desceu,agora...
Pra guiar os nossos passos
Por esses tempos de outrora.

Seguem reis do Oriente...
Uma estrela os vai guiar...
O povo já segue a frente,
Pra deus-menino adorar.

O tempo que tem memória,
O passado nunca esquece...
E o Natal e sempre a história
Que nos prende e desvanece!
E, aqui em Monsaraz,
No brilho de cada esquina...
O mensageiro..da paz.
Renova sua doutrina 

" Autor desconhecido"













































Tita Martinho