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quinta-feira, 5 de maio de 2022

A LENDA DA MOURA ENCANTADA E DO AJUDA DE GADO DE MONSARAZ

 A lenda da moura encantada e do ajuda de gado de Monsaraz




Numa noite de São João, nos tempos de outrora, quando o Manuel Sarugas seguia em passo largo para se preparar para o baile, antes de entrar na Vila de Monsaraz, ouviu chamar pelos seu nome e pensou que era alguma vizinha ou familiar que também se dirigia para sua casa, mas assim que virou a cabeça, ficou abismado e exclamou: - Meu Deus, que mulher tão linda!
A mulher misteriosa que o chamava, estava em pé em cima de uma rocha a sorrir e envolvida por um suave e brilhante nevoeiro dourado e pediu-lhe para se aproximar, depois disse-lhe que se chamava Zaya e que era princesa moura, do Reino de Badajoz que, como outras mouras, esteve refugiada na Vila de Monsaraz, o último bastião do seu Reino, a cair nas mãos dos cristãos e contou-lhe que tinha sido encantada pelo seu pai naquele lugar para não se tornar escrava dos cristãos, por isso, pediu-lhe para a desencantar, porque ele tinha no bornal o que era necessário para o fazer e em troca recebia o tesouro que estava associado ao encantamento e ficava muito rico.
O Manuel Sarugas olhava para ela de boca aberta, por fim, disse-lhe que não acreditava em encantamentos de mouras, mas fosse como fosse, estava disposto a fazer tudo por ela, era só dizer-lhe o que tinha de fazer.
A princesa moura disse-lhe que, teria de lhe dar o pão que levava no bornal, mas antes, colocava-o em cima da rocha, à qual daria três voltas dizendo as palavras mágicas: “Zaya estás livre, leva este pão e vai para a moirama” e, em cada volta à rocha dava um beijo no pão, depois recebia o tesouro e seguia o seu caminho, mas sem olhar para trás, sem olhar para trás, senão o desencantamento ficava sem efeito, e por consequência ele ficava sem o tesouro e o encantamento seria dobrado, estas palavras foram repetidas duas vezes.
O Manuel Sarugas fez tudo o que a princesa lhe indicou e no final recebeu o tesouro, meteu-o no bornal e seguiu o caminho para casa, mas ficou de cabeça perdida por ela e lembrou-se que devia tê-la convidado para ir com ele ao baile, ou podia ter exigido, afinal era um rapaz rico e começou a imaginar que dançava com ela no baile de Monsaraz, tanto dançou até que fez um rodopio que o obrigou a olhar para trás.
Quando entrou em casa ia eufórico, gritando que estavam ricos, os pais e os irmãos olharam uns para os outros e pensaram que ele estava parvinho, mas ele exibiu o bornal e pediu que o alumiassem com a candeia, dizendo que, estava cheio de moedas de ouro, mas todos confirmaram que não era verdade, estava cheio, mas de pedacinhos de ferro.
O Manuel Sarugas tinha visto o seu bornal cheio de moedas de ouro, por isso, não acreditava no que estava a ver, então lembrou-se das palavras da princesa, “não podia olhar para trás” e ele ao fazer aquele rodopio na dança, tinha olhado para trás e passado os olhos pela rocha, tentando vislumbrar a princesa, por isso, estava visto que o desencantamento tinha ficado sem efeito e o ouro do tesouro tinha-se transformado em ferro.
O Manual Sarugas ficou revoltado e já não foi ao baile, correu à rocha da princesa a tentar emendar o seu erro, chamou, chamou, disse as palavras mágicas muitas vezes e andou em redor da rocha até se cansar, mas nada aconteceu, então, zangado, atirou os pedacinhos de ferro pela ladeira de Monsaraz, chegando alguns à Aldeia do Telheiro e, ainda hoje, por ali se encontram alguns pedacinhos ferrosos.
O Manuel Sarugas, voltou para o curral do gado e nunca mais ficou bom da cabeça, em todas as conversas envolvia a princesa moura, como se estivesse presente e passou as noites de São João do resto da sua vida a andar em redor da dita rocha, dizendo as palavras mágicas e a dar beijos num pão.
Quanto à princesa Zaya, parece que, continua encantada nessa rocha, debutando misticismo à entrada da Vila de Monsaraz.
Fim
Texto: Manuel Correia
Fotografia: Isidro Pinto

domingo, 20 de março de 2022

A LENDA DO ABASTECIMENTO DE ÁGUA A MONSARAZ

 

Fonte do Telheiro
Fonte do Telheiro


A LENDA DO ABASTECIMENTO DE ÁGUA AO POVO  QUE MORAVA NO CÉU, EM MONSARAZ


Num Domingo do mês de Outubro de outros tempos, durante o almoço, o avô disse ao neto que, a seguir iam dar um passeio, para ele ver uma obra de alvenaria no Monte Novo do Seixo, perto de Montes Juntos, o neto vibrou de alegria porque, como sempre, seria mais uma aventura em companhia do avô!

Feitos os preparativos, saíram para sul em direção a Montes Juntos, estava um dia ameno, mas no céu havia nuvens soltas, formando grandes castelos, mas sem ameaças de chuva! 

O neto, não cabia em si de contente e, falava, falava, fazendo comentários sobre tudo, o que viam pelo caminho, pedindo sempre a aprovação do avô, ficando muito vaidoso por já perceber dos assuntos dos homens! 

Quando entraram na herdade do Terraço, avistaram a Vila de Monsaraz, e o neto não se conteve e começou a gritar, muito entusiasmado: 

Neto: Avô, avô, olhe, olhe, lá está a tal terra no céu! 

Avô: Qual Terra no céu? Ah! É Monsaraz! Então, no dia que fomos à lenha não te disse que além era Monsaraz?

Neto: Pois disse, avô, mas já viu que hoje não está no mesmo sítio do outro dia! Hoje até está do céu para cima! 

Avô: Na verdade, até parece que tens razão, mas não tens, porque é ilusão, aqui da nossa posição parece-nos que está acima das nuvens, mas não está no céu! 

Neto: Olhe que não sei avô, não sei, eu acho que está! Então se as nuvens estão no céu, aquela Terra ainda está mais para cima das nuvens, não pode estar noutro lado, senão no céu, ou para cima dele! 

Avô: Já te disse que não passa de ilusão, mas que a Vila de Monsaraz está lá muito alta, isso está! 

Neto: Então, o avô já lá foi?

Avô: Já, já, conheço muito bem a Vila de Monsaraz, é muito bonita! 

Neto: Então e como é que o avô subiu lá para o céu? Por algumas escadas?

Avô: Oh neto, toma lá tato, a Vila de Monsaraz fica num outeiro muito alto, mas não é no céu, daqui é que parece que está pregada ao céu, mas não está! Quando lá fui, subi por uma ladeira que os homens fizeram para subir e descer a buscar as coisas que lá precisam!

Neto: Avô, têm vir buscar tudo cá abaixo, porque não têm nada lá em cima?

Avô: Têm lá muita coisa, mas vai quase tudo cá de baixo! 

Neto: Levam quase tudo para cima, menos água, não é avô? Ela vem lá de cima, devem ter lá muita água! N 

Avô: Não, neto, pelo contrário, esse é um dos maiores problemas da Vila de Monsaraz, porque a água que bebermos, nasce na terra, como lá em cima é tudo rochas, assim, o povo de Monsaraz, também tem de descer e subir, com a água às costas ou carregada por cavalos, bestas e burros, embora lá fique alguma da chuva em cisternas, mas não chega para todos! 

Neto: Eh avô, coitados, deviam passar lá muita sede! 

Avô: Não, neto, não passavam sede, porque tinham muitas maneiras de fazer o abastecimento de água, não era fácil, mas tinham água! O avô já te conta como era feito o abastecimento de água à Vila de Monsaraz noutros tempos! 

Sabes que, os primeiros povoadores que foram para lá morar, ainda antes dos Mouros, fizeram logo uma cisterna para guardar a água da chuva e essa água durava para muitos meses, mas nesse tempo, as pessoas desciam as encostas do Monte todos os dias, a trabalhar nas terras e a guardar o gado e, quando voltavam a casa levavam cá de baixo, das Fontes, a água que precisavam para beber!  

Depois, de ser dos portugueses a  Vila de Monsaraz começou a crescer e o Rei D. Dinis mandou acrescentar e reforçar o Castelo e nessa altura fizeram uma cisterna e um poço lá dentro, para abastecer de água quem lá morava, assim como a guarnição militar e para terem água em caso de cerco pelo inimigo! 

Com o passar do tempo a população foi aumentando, tinha cada vez mais pessoas, logo, era preciso mais água, porque sem água ninguém vive, então, o governador mandou abrir um poço muito fundo, chamado poço D' El-Rei que, forneceu água aos moradores de Monsaraz durante muitos séculos, porém,  deixou de ser suficiente e tiveram de encontrar outras maneiras de ter mais água e, na centúria de 1500, a Câmara mandou construir uma grande cisterna na praça da Vila, à qual chamaram cisterna da Vila com grande capacidade, era o reservatório de água mais importante da Vila e recolhia as águas das chuvas que caiam nos telhados de quase todas as casas da rua principal, chamada Rua Direita e, um sistema de caneiras faziam entrar a água nessa cisterna. pelo que,  quando chovia ficavam com muita água para todos, mas em anos secos, quando chovia pouco, havia falta de água e tinham de a carregar lá para cima!

No início dos anos de 1800, a cisterna da Vila estava muito danificada, descuidaram-se em a arranjar e começou a faltar a água, então a Câmara mandou abrir um poço na praça da Vila, com sete a dez metros de fundo, porque, pensavam que resolviam o problema, mas esse poço dava pouca água e sem qualidade, acabando por desaparecer e convenceram-se que, o melhor reservatório de água era a cisterna da Vila e foi arranjada!

Ainda havia outra cisterna em Monsaraz, mas era privada e estava no interior da casa do Juiz de Fora, o homem mais rico da Vila, à qual, os moradores não podiam chegar! 

O abastecimento de água à Vila de Monsaraz, ao longo dos tempos, foi feito por três cisternas, contando com a da praça do castelo e a particular e por três poços, o poço D' El-Rei, o poço da praça da Vila e o poço da guarnição também dentro do castelo, mas desde sempre, os montessarenses, recorreram às Fontes de boas águas em vários lugares nos arredores da Vila, sendo mais conhecidas, a Fonte do Telheiro, a Fonte dos Poços Novos e a Fonte da Colaça, sendo o transporte da água a partir dessas Fontes feito em cântaros de barro às costa dos moradores, ou em cavalos, mulas e, principalmente pelos aguadeiros, os homens que vendiam a água às portas das casas na Vila, andavam todo o dia, desde madrugada, descendo e subindo as ladeiras, chegando quase ao esgotamento e muitas vezes o cansaço era tanto que para subirem, tinham de agarrar a cauda dos burros para os ajudarem a subir, mas nunca negavam água aos montessarenses!

Sabes que, nenhuma Fonte forneceu tanta água e de boa qualidade, à Vila de Monsaraz, como a Fonte do Telheiro, a qual, mesmo nos anos muito secos, quando secavam todas as Fontes na região, esta, deu sempre água em abundância! 

Neto: Então, assim as pessoas que moravam lá no céu, não passavam sede? 

Avô: Nâo, neto, de uma maneira ou outra, tinham sempre água, quando chovia todas as vasilhas serviam para apanhar a água dos beirais, até os tachos e as panelas, porque a água da chuva é muito boa para beber e para cozinhar, não há melhor água para cozer os grãos e o feijão e, além disso, como te disse, a dita Fonte do Telheiro nunca deixou de lhes dar água em abundãncia! 

Neto: Eh, avô, eu gostava muito de ver essa Fonte e aquela Terra no céu! 

Avô: Fica descansado neto, um dia vais conhecer isso tudo.

Assim, durante a viagem, o avô contou ao neto, à sua maneira, o que sabia sobre o abastecimento de água, durante séculos, aos moradores da Vila de Monsaraz.

Fim 


Texto: Manuel Correia Manuel Fotografia: Isidro Pinto

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

A ORIGEM DAS CALÇADAS DE MONSARAZ

 IMPORTANTE E BONITO TEXTO DO NOSSO AMIGO Francisco Capelas SOBRE  A ORIGEM DAS CALÇADAS DE MONSARAZ



 Monsaraz

As antigas calçadas das ruas da vila e dos seus acessos.

Sabe-se que , ao lado da posse de altos cargos administrativos e de títulos nobiliárquicos os nobres portugueses continuaram no século XV a receber diversos privilégios fiscais .

Em tempos de D. João I, Monsaraz e o seu termo foi integrado na sereníssima Casa de Bragança, por doação de D. Nuno Alvares Pereira em 1422, ao seu neto D. Fernando passando em matéria de tributação fiscal, a constituir um dos mais preciosos e fartos vínculos desta grande casa ducal portuguesa.

Desde os tempos de D. João I , era uma terra imune, por ser couto de homiziados, destinado a atrair moradores e a tentar a sua expansão demográfica a custa de criminosos foragidos à justiça e recrutados na escória Humana do Pais, caracterizada pelo não pagamento de impostos à coroa, onde a entrada de funcionários régios era proibida, e onde todas a funções administrativas dependiam da sereníssima Casa de Bragança, que nomeava o juiz ou ouvidor para fazer justiça, o cobrador de impostos, vigários e meirinhos, e onde também mantinha as suas próprias tropas.

Na história de Monsaraz, encontramos períodos de graves e perigosas crises de despovoamento derivado ao fato da vila ser «fragosa e de má serventia» situação ,aliás, que originava um fenómeno periódico e repetido, com carater fatalista , dadas as frequentes crises demográficas.

A sua importância estratégica como povoação fortificada próxima da fronteira com Castela, recomendava o seu forte povoamento, e para isso havia que criar condições que levasse a fixação dos seus moradores.

Por isso D. Afonso V nas cortes de 16 Dezembro de 1439,terá atendido de imediato aos apelos formulados pelo procurador do concelho, concedendo a Monsaraz todos os privilégios.(1)

O grande investigador da história regional Dr. José Pires Gonçalves escreveu a propósito o seguinte:

«E tão grave se manifestou esta crise demográfica que , nas cortes celebradas em tempos de D. Afonso V, o procurador do concelho de Monsaraz, Diogo Lourenço, apelou ao rei e solicita para os moradores da vila e do seu termo, como medida repovoadora, a isenção dos tributos a que se encontravam obrigados, alegando ainda, à concessão com clarividência politica, que essa isenção devia ser extensiva «aos judeus e mouros que ali fossem morar»

O rei com exata noção da realidade local, não só atendeu as reclamações formuladas por Diogo Lourenço em matéria administrativa e fiscal, como também, para facilitar o acesso dos moradores da vila, mandar pavimentar as congochas que pelos flancos do outeiro ascendem ás portas da muralha e alarga a sua generosidade até à conceção do grande previlégio urbanístico do calcetamento das ruas no interior da povoação.

Este calcetamento foi executado com material lítico pobre do Xisto regional e para maior segurança ambulatória das cavalgaduras e dos próprios homens, movendo-se nas ruelas de acentuado desnível, a técnica aplicada foi o da calçada em cutelo, com os toscos blocos de lage implantados de gume no leito da pavimentação, como ainda hoje ali de pode observar nos troços mais antigos do empedramento»(2)

Estes grandes obras de beneficiação da vila e dos seus acessos, terão decerto necessitado de muita mão de obra escrava, naquele tempo abundante no termo de Monsaraz.

Não conheço nenhum documento que me permita afirmar como verdade histórica, de onde foram extraídas as pedras de xisto necessárias para estes pavimentos, mas,… é na toponomia do tablado físico do antigo concelho de Monsaraz que ainda hoje existe o topónimo” Serra das Pedras”. Não me custa acreditar que terão sido dos afloramentos de xisto existentes naquela serra (próxima de Monsaraz), que terão sido extraidas as pedras para os penosos trabalhos de calcetamento das ruas e acessos á vila medieval de Monsaraz.

Texto: FRANCISCO CAPELAS

Fotos: Porta d´Évora -José Rosado de Carvalho

E Monsaraz A Caminhar 

Referências:

(1)-A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, Livro 19, fól. 70

(2)-Monraraz- Vida morte e ressureição de uma vila alentejana-Joé Pires Gonçalves




quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

A lenda do Milagre do Senhor Jesus dos Passos no Terramoto de 1755

 

História, lendas e tradições da Vila de Monsaraz 

A lenda do Milagre do Senhor Jesus dos Passos no Terramoto de 1755 

Na madrugada do dia 01 de Novembro de 1755, a aurora não apresentava nenhum sinal diferente das anteriores, anunciava mais um lindo dia de sol brilhante e, mesmo sendo o dia de Todos os Santos, a vida do campo não podia parar, embora, as sementeiras estivessem feitas, o trabalho nunca acabava, assim, após assistirem à primeira missa da manhã, os moradores da Vila de Monsaraz, trabalhadores rurais, dirigiram-se aos respetivos Montes e herdades, mas os funcionários do Reino e da Sereníssima Casa de Bragança, a donatária da Vila, sendo feriado, estavam aliviados das suas funções e, com as suas famílias, foram assistir à Missa das nove horas na Igreja de Santa Maria da Lagoa! 

Cerca das nove horas e trinta e cinco minutos, da manhã, a Vila de Monsaraz estremeceu com tão grande intensidade que, as suas muralhas, muito degradadas desmoronaram, imediatamente, assim como  parte do Castelo, porém, os edifícios e as Igrejas do interior da Vila, pouco sofreram, apenas ficaram algumas rachas e cairam uns pedaços de paredes velhas e de rebocos, sem fazer nenhuma vítimas! 

Naquela manhã, a Igreja de Nossa Senhora da Lagoa estava cheia de fiéis, a assistir à Missa de Nossa Senhora do Rosário que, era cantada com orgão e assistida por oito sacerdotes e, no momento em que a Igreja sofreu o grande impacto do terramoto, caiu muito pó e rebocos e, algumas Imagens foram afastadas dos lugares nos seus altares, os fiéis entraram em pânico, mas não houve nenhum perigo para as pessoas que se achavam na Igreja, apenas ficaram muito empoeiradas, sendo a sua proteção atribuída a Nossa Senhora do Rosário, a qual todos os fiéis durante o terramoto, com vozes e lágrimas invocaram! 

Passados poucos minutos, ficou um medonho silêncio, sem ninguém se mover do lugar onde se encontrava, com receio que o seu movimento desencadeasse a queda das paredes e, começaram a ouvir-se gritos de aflição no exterior, porque, as pessoas não viam sair ninguém e pensaram  que, a abóboda da Igreja de Santa Maria da Lagoa tinha desabado e estavam lá todos sepultados!

Assim que, o povo e as autoridades se certificaram da ausência de réplicas do terramoto, ainda desorganizados, começaram a correr pelas ruas, pelos campos, por todo o lado, à procura dos seus amigos e familiares, dando lugar a grande confusão! 

O tempo foi passando e antes do meio dia, já havia grupos organizados para prestar ajuda, começaram por visitar as casas e os seus moradores, avaliando o nível de destruição e se era necessário dar alguma ajuda, foram entrando nos edifícios e nas Igrejas da Vila e, quando um grupo entrou na Igreja da Misericórdia deparou-se com um cenário que os deixou abismados, não mexeram em nada e, algumas pessoas saíram a correr a chamar as autoridades, os guardas, militares e padres e com eles veio muita gente atraída pelo alarido! 

Na Igreja da Misericórdia, Nossa Senhora da Piedade com sua criança, tinha o seu lugar no segundo Altar colateral da parte da Epístola e, durante o terramoto caiu no meio da Igreja em frente de Nosso Senhor Jesus dos Passos, ficando a seus pés, em posição de suplício, por isso, foi logo assumido pelos devotos que Nossa Senhora movida da sua piedade se prostrou por terra a suplicar a seu Bendito Filho, para salvar a Vila de Monsaraz e seu Termo, (Concelho) da destruição, e de verdade, não houve ruína de relevo nos edifícios da Vila e, as gentes não sofreram o menor dano físico! 

A notícia de que o Senhor Jesus dos Passos tinha feito um Milagre ao salvar a Vila de Monsaraz e seu Termo da destruição, depressa se espalhou e, em poucas horas o povo juntou-se na Igreja da Misericórdia, onde decidiram continuar a juntar-se durante nove dias seguidos a fazer Preces e no fim fizeram uma procissão e Missa cantada para lhe dar as graças! 

Os montesarenses reconheceram o grande benefício, sem dúvida, que foi um Milagre, por isso, continuaram a dar as graças a Nosso Senhor Jesus dos Passos, tornando-se excessiva a sua devoção para com a sua soberana Imagem, havendo devotos que a visitavam todos os dias, mas o dia da visita comum, estava assente que seria às Sextas - Feiras! 

Os montesarenses são muito devotos de Nosso Senhor Jesus dos Passos, continuando a venerá-lo, de entre outras formas de fé, através da realização da Festa em sua honra no segundo fim de semana do mês de Setembro. 


Fim

Texto: Manuel Correia 

Fotografia: Isidro Pinto 


Nossa Senhora da Piedade - Monsaraz 


domingo, 30 de janeiro de 2022

O TI GARRANA A VENDA DO BENTO E A TROVOADA

 O TI GARRANA A VENDA DO BENTO E A TROVOADA


Já aqui referi em alguns textos, que o Telheiro provavelmente devido á sua privilegiada localização geográfica, desempenhou importante papel socioeconómico durante várias décadas, nomeadamente, nas de 50/60/70 proporcionando como tal uma enorme oferta de serviços das mais variadas profissões, foi nessa condição, que atraído pela prosperidade do Telheiro e pela consequente oferta de trabalho, oriundo dos Motrinos chegou ao Telheiro o Ti Garrana, onde durante longos anos, desempenhou o papel de malhador de ferro na oficina dos LOPES, com o passar dos anos e o vício a corroer-lhe o físico, acabou por passar os últimos anos da sua vida, sozinho numa improvisada choça, junto ao tronco de uma milenar oliveira, que ainda hoje existe, na tapada da fonte quase a chegar ao posto de aquilo que era a Guarda Fiscal do Telheiro.
Sem meios próprios de subsistência, vivia da caridade alheia e da boa vontade de um ou outro que lhe pagavam um copinho.
Foram épocas duras para todos, de uma maneira geral, as mercearias e tabernas ou vendas como também se designavam eram pequenos negócios familiares, na maioria dos casos repartidos com outras atividades, ou pequenos seareiros ou até assalariados de outros nas grandes herdades, como era o caso do Bento à época, carreiro no Azinhalinho, ficando durante o dia o negócio entregue à esposa.
O ti Bernardino Garrana apesar de entregue ao álcool e das precárias condições em que vivia era bom homem, respeitador e educado, sendo por isso respeitado por toda a gente, nesse dia e como de costume, foi já perto da hora de almoço até á Venda do Bento no Ferragudo, quem sabe aparecia alguém capaz de lhe pagar um copinho, quis o destino, que enquanto estava por ali, se armou trovoada tamanha, que foi a Chica Viola que apavorada com o medo dos trovões lhe disse, AÍ Ti BERNARDINO!!!!! Deixe-se estar aqui que eu e a minha Maria Antónia temos muito medo das trovoadas e assim sempre nos faz companhia, respondia o BERNARDINO, OH CHICA!!!!!! está descansada que pelo menos aqui não me cai a água em cima, a trovoada foi-se aproximando, os relâmpagos e trovões eram cada vez mais frequentes e fortes, aproximando-se a hora do almoço e incapazes de comer com medo dos trovões, trouxe a CHICA VIOLA as sopas de feijão, que estavam ao lume na panelinha de barro e que tinha preparadas para si e para a filha, comentando para o Ti Bernardino OLHE Ti BERNARDINO!!!! Coma as nossas sopas que a gente com a trovoada não somos capazes de comer, enquanto a Chica Viola e a Filha a cada relâmpago forte se benziam, AI JESUS SANTO NOME DE JESUS, SANTA BARBARA NOS ACOMPANHE!!!!! Impávido e sereno a tudo isto ia o Bernardino banqueteando-se com as sopinhas de feijão e o copinho de vinho, já bem comido e quase a terminar a refeição, num gesto tão próprio de quem não usa guardanapo, limpou os beiços as costas da mão, lambeu os lábios e exclamou, AI VIRGEM SANTÍSSIMA, ASSIM FIZESSE TRAVOADA TODOS OS DIAS!!!!!!
O orgulho nas nossas origens é aquilo que nos diferencia e nos engrandece a Chica Viola e o Bento eram os meus pais e a Maria Antónia a minha irmã.
“Texto Isidro Pinto”
“Foto da Net”

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

A TI ANA ROLA E O Dr. RAMOS

 A TI ANA ROLA E O Dr. RAMOS


Não serão já muitos mas alguns conterrâneos haverá que ainda se recordam da tão carismática figura do doutor Ramos, médico veterinário de reconhecido valor e muito admirado nos concelhos de Reguengos, Mourão, Moura, não só pelas suas capacidades profissionais mas também pelo seu elevado sentimento humanista, muitas eram as vezes que aos pobres nada cobrava. Monsaraz desde os tempos mais remotos sempre viveu condicionada pelos difíceis acessos, uma das fornas de o minimizar era a utilização do gado muar, quase todas as famílias tinham um burro, para carregar a lenha, para ir buscar a água ou para lavrar as íngremes encostas, de onde com muito esforço arrancavam à terra, as batatas, os grãos, as favas e algum trigo ou centeio para o fabrico do pão. Era do conhecimento geral que não se podia deixar fartar os burros de palha de favas, creio por lhe causar obstipação podendo leva-los à morte. Por um pequeno descuido deixou a Ti Ana Rola que a burra comece mais palha de favas do que devia, passados já alguns dias e com a burra a piorar de dia para dia, não tiveram mais remédio que chamar o Dr. Ramos, que após imenso e árduo trabalho conseguiu salvar a burra. Aliviada por ver a sua burrinha fora de perigo pergunta a Ti Ana Rola ao Dr. Ramos, Dr. Quanto lhe devemos ? Deixa estar não te preocupes não é nada é de graça respondia este. Não cabendo em si de contente exclamou a Ana Rola, BENDITO SEJA O SR. DOS PASSOS QUE SE SALVOU A MINHA BURRINHA. Ai foi o Sr dos Passos !!! Eu é que me fartei aqui de trabalhar e agora foi o Sr. Dos Passos !!! vai lá buscar o dinheiro para me pagares que acabou-se o de GRAÇA dizia o Dr Ramos.

Obrigado amigo António Rodrigues (Marreneco) por mais este pedaço de história das nossas gentes.

"Texto e foto de Isidro Pinto"

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

A LENDA F O MILAGRE DO SENHOR JESUS DOS PASSOS

 


A Lenda do Milagre do Senhor Jesus dos Passos, em Monsaraz

Nos finais da centúria de 1500, uma rapariga chamada Maria Roseta, morava numa casa pequenina junto ao Castelo da Vila de Monsaraz, deixada por uma tia, vindas não se sabia de onde e, após a morte dessa tia, ficou a morar com o seu gato preto! 

A Maria Roseta era muito pobre e franzina e toda a gente dizia que era feiticeira, porque sabia rezas e mezinhas, com as quais curava muitas maleitas, mesmo assim, não era respeitada pela maioria dos montesarenses e sempre que saia à rua era alvo de troça, risos, assobios e palavras ofensivas, mas muitas dessas pessoas ou familiares, quando se sentiam mal, em segredo, corriam a sua casa pedir-lhe ajuda e ela tratava todos os males com muita sabedoria e dedicação! 

No dia 9 de Junho de 1594, era Corpo de Deus, e os ranchos já andavam a ceifar pelos campos de Monsaraz, cerca das 10 horas, quando as foices entravam pelas searas, o sol, repentinamente, desapareceu, os ceifeiros e ceifeiras ficaram assustados, pararam o trabalho e os seus olhos virararm-se para o lado do astro rei e viram uma nuvem negra que o ofuscava e não deixava passar a luz! 

Os montesarenses ficaram aflitos sem perceber o que se estava a passar e pensaram que, seria alguma trovoada sem trovões, mas naquele momento começaram a cair milhares de gafanhotos esfaimados que consumiam os cereais como se fosse fogo! O combate aos insetos começou, imeditamente com tudo o que tinham à mão, mas era uma luta sem tréguas e não demorou a juntar-se gente á procura de ajuda ou de alguma solução para tão grande problema, mas apesar de surgirem muitas ideias, devido á desconformidade de insetos, depressa caiam por terra! 

À medida que o tempo passava, a situação piorava, então, alguns montesarenses decidiram pedir ajuda à Maria Roseta, porque, diziam que ela sabia mezinhas para todos os males do mundo e não tinham outra alternativa! 

Um grupo de homens e mulheres, correram pelas ladeiras de Monsaraz a pedir ajuda à Maria Roseta, mas ela respondeu-lhe que não tinha nenhuma mezinha para aquele mal, não podia fazer nada, perante a decepção e a insistência ela disse-lhe que sabia quem podia ajudar, deviam fazer, imediatmente uma procissão aos campos de Monsaraz com Nosso Senhor Jesus dos Passos! 

Os montesarenses, não veneravam o Senhor Jesus dos Passos e interrogaram a Maria Roseta se a procissão não podia ser a outro Santo ou Santa? Ela afirmou que não, só podia ser o senhor dos Passos, então o povo já de cabeça perdida correram à Igreja da Misericórdia e a rezar levaram a imagem do Senhor dos Passos que tinha sido oferecida por D. Teodósio II, Duque de Bragança, poucos anos antes e, nem esperaram pelo Padre que quando se apercebeu partiu a correr com a batina ao pescoço atrás da procissão, mas assim que, a imagem do Senhor dos Passos saiu da Igreja da Misericórdia, os gafanhotos que já estavam nas terras de Monsaraz, começaram a morrer e quando avistaram a grande nuvém de gafanhotos, o sol quase, repentinamente, começou a brilhar, porque a nuvem desceu e os insetos começaram a cair mortos sobre as águas do rio Guadiana, sendo impedidos de alcançar os campos de Monsaraz! 

O povo de Monsaraz não conseguia perceber o que tinha acontecido e, surgiram muitas versões sobre o acontecimento, no entanto, no dia seguinte a vida rural voltou ao normal, mas não se falava noutra coisa e o povo foi-se apercebendo do risco que correram, ficando cada vez mais claro que tinha acontecido um milagre de Nosso Senhor Jesus dos Passos que, os tinha livrado da praga de gafanhotos, logo da fome certa, por isso, tinham de encontrar uma forma de agradecimento, então, marcaram uma reunião popular, onde decidiram que entre outros atos de fé, todos os anos depois das colheitas a Vila de Monsaraz, por gratidão, fazia uma procissão ao Senhor Jeusus dos Passos no segundo Domingo do mês de Setembro e, como sabemos, essa tradição ainda hoje se mantém! 

Ainda nessa reunião popular, alguém lembrou que, se o milagre tinha acontecido, devia-se à Maria Roseta, porque, ninguém imaginava pedir auxílio ao Senhor Jesus dos Passos, por isso, ela não podia ser  esquecida e, naquele momento, alguns lavradores de Monsaraz que estavam presentes, prontificaram-se a dar-lhe uma casa nova e todos os bens alimentares, até ao fim da sua vida! 

A partir daquele dia, os montesarenses que troçavam dela, mostraram-se arrependidos e, em vez de troçar, começaram a venerá-la e quando a Maria Roseta foi prestar contas a Deus, todos os montesarenses lhe prestaram homenagem de agradecimento, acompanhando-a até à sua última moradal 

A casa da Maria Roseta, já não existe, porque teve de ser sacrificada para dar lugar à construção das novas muralhas da Vila de Monsaraz, durante a guerra da restauração. 

Bem Hajam, Marias Rosetas!

Fim 

Podemos garantir que, existem documentos régios de Castela dessa época, a testemunhar a ocorrência desta, ou de outras pragas semelhantes, de gafanhotos nesta região e que deixaram as populações a passar fome, porque esses insetos devoraram os cereais e as pastagens do gado.

Texto: Manuel Correia 

Fotografia. Isidro Pinto

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

O BUNDA E A LEBRE DA RUA DIREITA

 

O Bunda e a lebre da rua Direita




 Ao falar de vizinhos apenas com uma casa de permeio morava o meu amigo Bunda, bom homem com quem mantive e mantenho uma óptima relação de amizade. Era mais uma noite de Agosto de um calor insuportável em que a única forma de amenizá-lo era abrir as portas, não só para tornar o serão mais aprazível mas também para que as casas refrescassem um pouco para o dia seguinte, não querendo perder pitada da televisão estava o Bunda e a família, ti Rosa sua esposa e os filhos Domingos José, Francisco, e José Domingos na sala de entrada, que normalmente neste tipo de habitações alentejanas é também sala de estar. Na televisão o José Mestre Baptista toureava já o segundo toiro, da corrida do campo pequeno, a falta de nitidez do velhinho aparelho era notória queixava-se insistentemente a ti Rosa ó Tonho és sempre a mesma coisa estou farta de te dizer para ires acima do telhado arranjar a antena e tu nada, agora, está a dar a tourada e isto só se vê esta chuva, o Bunda fazia ouvidos de mercador. Apesar de tudo isto, a atenção era redobrada, apenas o José Domingos havia adormecido no camalho, as portas estavam abertas de par em par e para que os mosquitos não entrassem a única luz existente era a da televisão, a duzentos metros mais acima mais ou menos junto á porta do Lumumba acabava de chegar um casal de turistas de meia idade e que, supostamente, haviam morto uma lebre na estrada que se apressaram a tirar do porta bagagens, para estupefacção de ambos assim que o abriram a lebre ó pernas para que te quero e de um salto em escassos segundos já corria rua abaixo, completamente desorientada corria agora na direcção do castelo, a perseguição era feita não só pelo casal mas também por muita outra gente que aquela hora estava sentada na rua ao fresco, a estupefácção era geral, até um pachorrento cachorro que dormitava junto ao pelourinho não quis acreditar no que os seus olhos viam e não demonstrou o menor interesse de correr atrás dela, até que não se sabendo bem porquê resolveu a dita lebre entrar portas dentro para a casa do Bunda, imagine-se o espanto e confusão a perseguição era agora feita entre mesas e cadeiras e apenas com a luz que emanava da televisão. Não me recordo como terminou este episódio mas suponho que nada bem para a lebre.

"Texto e foto Isidro Pinto"

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

HOMENAGEM À MINHA TERRA NATAL MONSARAZ.

 HOMENAGEM À  MINHA TERRA NATAL MONSARAZ.

(Casa do Dr. Queimado)


QUANDO DEUS CRIOU O MUNDO

PARA SUA OBRA OBSERVAR

SUBIU AO CIMO DE UM MONTE

PRA TODO O MUNDO AVISTAR

MAS O MONTE ERA BAIXINHO

O QUE A DEUS NÃO SATISFAZ

E DIZ PARA O MONTEZINHO

TU UM ALTO MONTE SERÁS 


E O MONTE NESSE MOMENTO 

CRESCEU COM TAL PRESTEZA

QUE DEUS POSTADO NO CIMO

VIA TODA A NATUREZA

COM TÃO LARGO HIRIZONTE

DEUS FICOU MUITO ENCANTADO

E DISSE SERÁS UM BELO MONTE

E POR MIM ABENÇOADO 


UM ALTO MONTE SERÁS 

E MUITO BEM POVOADO

DEUS AINDA ACRESCENTOU

E O NOME ENTÃO SE FORMOU

DESTA MINHA LINDA TERRA

QUE TANTA BELEZA ENCERRA

E SE CHAMA MONSARAZ 


NASCIDOPOR DIVINA GRAÇA 

HÁ EM TI MUITA BELEZA

ÉS UMA PÉROLA ENGASTADA

NO COLAR DA NATUREZA

ÉS UM CANTEIRO PERFUMADO

COMO OUTRO NÃO HÁ IGUAL

NESTE MEU PAÍS ADORADO

QUE SE CHAMA PORTUGAL


OH MONSARAZ

TU ÉS TERRA ABENÇOADA

SÃO PARA TI OS PRIMEIROS

SORRISOS DA MADRUGADA

OH MONSARAZ 

TU ÉS DA PÁTRIA UM ALTAR 

ONDE ALMAS DE HERÓIS 

A HORAS MORTAS VÃO REZAR

OH MONSARAZ 

ÉS A TERRA ONDE EU NASCI

E POR MUITO EU TE AMAR

FIZ ESTES VERSOS PARA TI


AUTOR: FRANCISCO CAEIRO QUEIMADO.


OBRIGADO Amigo José Jose Pereira por teres sido tão fiel depositário de esta pequena relíquia que tiveste a amabilidade de fazer chegar até mim. Nunca é  demais recordar-mos este pequeno grande homem o Dr. Queimado

segunda-feira, 17 de maio de 2021

A LENDA DO OUVIDOR DA VILA DE MONSARAZ


A lenda do Ouvidor da Vila de Monsaraz 

No ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e trinta, a Vila de Monsaraz estava no auge em termos sociais e económicos, sendo considerada a jóia da Sereníssima Casa de Bragança, repleta de gente influente, fidalgos, escudeiros e lacaios, alguns frequentavam a Corte do Rei D. João III, o Piedoso, mas devido à sua fama, também atraía muitos indesejados, maltezes, vadios e malfeitores que vagueavam em grupos pelo reino, em busca do que podiam apanhar sem trabalhar!

A Villa de Monsaraz, nessa época, estava a tornar-se uma terra sem lei e chegavam muitas queixas à Corte a pedir que fosse feita justiça, porque a Ouvidoria não tinha Ouvidor, facilitando a criminalidade, com a agravante da proximidade da fronteira com Castela, por onde entravam e saiam muitos criminosos! 

Depois de confirmar o fundamento das queixas, o Rei D. João III, nomeou João de Sousa que, tinha fama de ter mão pesada contra o crime, ganhando com isso, o apelido de "sem coração" por ser impiedoso, para Ouvidor da Ouvidoria da Vila de Monsaraz! 

Um Ouvidor era a designação dos magistrados ou juízes que superintendiam na justiça das terras senhoriais! As suas funções eram semelhantes às dos corregedores nas terras diretamente dependentes da Coroa! As terras sujeitas a corregedores eram chamadas comarcas ou correições e as sujeitas a ouvidores eram chamadas ouvidorias, como era o caso da Vila de Monsaraz, visto ser uma Vila senhorial, da dita Sereníssima Casa de Bragança!

Quando o Ouvidor, ou juíz João de Sousa chegou à Vila de Monsaraz, nos finais do segundo decénio de 1500, confirmou que, a justiça estava um caos, a cadeia era assaltada e, os presos libertados por grupos de malfeitores, portugueses e castelhanos, sendo necessário começar, imediatamente a repor a ordem e começou a fazer julgamentos apressados, bastava um homem bom, apresentar uma queixa, fundamentada e com as devidas testemunhas,  se fosse caso de sangue, ou tentativa de homicidio, a sentença era a condenação à Forca, sem fazer mais averiguações, como era obrigação do Ouvidor! 

A justiça do Ouvidor João de Sousa, o "sem coração", começou por ter bons resultados, porque obrigou muitos vadios e malfeitores a afastarem-se da Vila de Monsaraz e, aliviou a criminalidade, mas isso não alterou o seu método de fazer justiça, era Ouvidor, mas não estava para perder tempo a ouvir o que devia ouvir, dizia que, havendo testemunhas dos crimes, embora em muitos casos compradas, não era necessário ouvir ou investigar mais nada, condenando eventuais inocentes à Forca e, não aceitava os pedidos dos suplicantes, mesmo dos padres que, muitas vezes tinham provas que, os condenados estavam inocentes! 

A justiça do Ouvidor, depressa caiu na  injustiça, porque, aumentavam os que eram enforcados estando inocentes e nesses casos, havia pais que deixavam as casas cheias de filhos desamparados, com fome, revoltando qualquer homem justo, mas em nenhum caso o "sem coração" aceitava pedidos de clemência, mesmo que fossem de fidalgos ou dos padres de Monsaraz! 

Enquanto os erros da justiça do Ouvidor foram sobre os mais pobres que, por medo, as famílias pouco se queixavam, não chegavam à Corte,  mas quando bateu à porta dos mais influentes e o Ouvidor não atendeu aos pedidos de clemência, nem de mais investigação, começaram a chegar queixas ao Rei D. João III que, não dava resposta, porque achava que o Ouvidor estava fazendo um bom trabalho na Vila de Monsaraz e, os queixosos que, eram cada vez mais, secretamente, organizaram um grupo de apoio e planearam o afastamento do Ouvidor da Vila de Monsaraz!

O grupo dos queixosos tinha aliados do clero, vários padres, amigos e familiares na Corte que, começaram a investigar o passado do Ouvidor, ou seja, a procurar a existência de atos que o comprometessem e, não foi difícil descobrir que, tinha processos judiciais arquivados, por adulterar com mulheres casadas que, era crime, embora não lhe tivesse acontecido nada por falta de provas, mas ficaram a saber que, muito fácilmente perdia a cabeça por mulheres bonitas, logo, seria este o caminho que tinham de seguir para o apanhar em falso!

Nessa época, entre outros, residia e trabalhava na Vila de Monsaraz um tabelião, casado com uma mulher muito mais nova, era alta, esbelta, muito linda e vaidosa, com porte duvidoso que, não se poupava a expôr-se nos seus passeios pelas principais ruas da Vila, virando do avesso, a cabeça de muitos homens!

Não foi necessário muito tempo para o Ouvidor perder a cabeça pela mulher do tabelião, a tal ponto que, não se importava de dar nas vistas, talvez por se achar muito poderoso, uma situação que dava jeito ao grupo dos queixosos, os quais, com muito cuidado, começaram a registar, com testemunhas influentes, os encontros do Ouvidor com a mulher do tabelião, a data, horas e lugares onde se encontravam, reforçado com a acusação de desleixo pelo seu dever de Ouvidor que, depois era mal desempenhado, com erros e condenações de inocentes à Forca! 

As provas foram reunidas durante meses e bem organizadas, com testemunhas muito conceituadas, homens bons, padres, lacaios, lavradores e outros, sendo o processo enviado ao rei D. João III debaixo de grande segredo, na acusação escreviam que, o Ouvidor andava a adulterar com a mulher de um tabelião de Monsaraz e devido a isso, não cumpria a sua missão, condenando inocentes à Forca, devido a não ouvir ou investigar o que tinha de ouvir, pelo que,  pediam o seu afastamento da Ouvidoria da Vila de Monsaraz! 

O processo chegou às mãos do Rei D. João III, com o parecer de altos magistrados da Coroa, com indicação que o Ouvidor era recorrente e com a proposta de ser afastado da Ouvidoria da Vila de Monsaraz, mas o rei, não só o mandou afastar do cargo, como também, emitiu uma ordem de prisão, com indicação de ser julgado pelos crimes de que era acusado, sendo o Ouvidor João de Sousa encarcerado na cadeia do Castelo de Monsaraz! 

A prisão do Ouvidor chegou, imediatamente aos ouvidos das gentes da Vila de Monsaraz, ficando a maioria muito contentes, porque, não sabiam quando podiam ir parar à Forca, por qualquer acusação falsa, como tinha acontecido a alguns montesarenses, mas começaram a dizer que, era uma prisão de fachada, para acalmar a população, porque, sabiam que na cadeia não lhe faltava nada, tinha tudo do melhor e, vários guardas, noite e dia a guardar a cadeia para o proteger contra inimigos que lhe juravam pela pele, por ter condenado à forca, filhos, familiares ou amigos que, estavam inocentes, ou tinham cometido pequenos crimes que, não podiam ser puníveis com a forca e ouvia-se que, lhe rezavam muitas pragas e as feiticeiras faziam mezinhas para tirar o coração ao sem coração! 

O seu bem estar na cadeia, era comentado pela Vila de Monsaraz e, as ameaças contra ele, aumentavam dia a dia, ficando a sua segurança em causa, pelo que, após ser dado conhecimento ao Corregedor da Corte, foi decidido que seria transferido para a prisão da Corte em Évora! 

A saída do Ouvidor da Vila de Monsaraz para Évora foi marcada, secretamente para uma noite pelas duas horas da manhã, quando a Vila estivesse a dormir e, não dessem por nada, mas nessa noite, quando o capitão da guarda o foi acordar para se preparar e partir, o Ouvidor estava morto sobre a cama! 

O capitão da guarda que fazia parte da escolta, foi a correr chamar o alcaide e o físico (médico) do castelo, este para verificar se ainda havia sinais vitais, uma vez que, achava que o corpo do Ouvidor ainda estava quente e, quando o físico e o ajudante, enfermeiro, o viraram e a luz dos archotes o iluminaram, os presentes, ficaram paralisados a olhar uns para os outros, sem dizerem uma palavra, por fim, o físico exclamou: - Sem coração! Tinham arrancado o coração do Ouvidor! 

Quando foi comunicado ao alcaide que, estava do lado de fora da cadeia, este não queria acreditar, depois de se inteirar da situação, começou a interrogar os guardas que estavam de serviço, separados, um a um, e contaram todos a mesma versão, a porta da cadeia estava fechada até o capitão ali chegar e, antes nunca se abriu, por isso, ninguém lá podia entrar e, acabavam exclamando que, decerto, se tinha suicidado, não havia outra explicação, mas ainda não sabiam da ausência do seu coração!

No interrogatório, o alcaide perguntou aos guardas o que tinham visto e ouvido antes da triste descoberta e todos responderam que tinham visto o Ouvidor a deitar-se na sua cama depois da ceia, mas nenhum tinha ouvido nem gritos nem gemidos, nem ai, nem ui, mas todos diziam que, tinham visto um grande gato preto com uns olhos que iluminavam a noite, nunca visto no castelo, a sair por entre as grades do portão da cadeia e que se tinha sumido na última torre do castelo a da esquerda, alguns guardas, diziam que tinham visto mais do que um gato, fazendo o mesmo percurso! 

Depois das respostas dos guardas, o alcaide fez um relatório do sucedido e escreveu uma carta a pedir instruções e ajuda muito urgente, por estar perante um caso insólito, um grande mistério e, mandou dois mensageiros a Évora, onde chegaram cedo e entregaram os documentos ao Corregedor da Corte! 

Tratando-se da morte de um magistrado e do tipo de crime, ainda nesse dia, à tardinha, chegou uma equipa com os melhores investigadores e físicos da Corte, ao castelo de Monsaraz, os quais, quando se inteiraram sobre o que tinha acontecido, ficaram incrédulos e quiseram começar logo a trabalhar, isolaram a área da cadeia, para não ser devassada e passaram o resto da tarde e a noite a interrogar os guardas e toda a gente com acesso ao castelo, e de manhã, começaram a analisar ao milímetro o espaço da cadeia e do castelo e, no dia seguinte, alguns passaram para o exterior a interrogar os montesarenses residentes nas imediações, sobre o que tinham ouvido ou visto de estranho, relacionado com o caso, nos dias anteriores, mas passadas quase duas semanas a investigar, estavam muito dececionados no ponto de partida, sem descobrir nada de novo, ninguém tinha visto nem ouvido nada, restava-lhe a confirmação que, quem tinha assassinado o Ouvidor tinha passado pela torre que os guardas referiam, onde estavam alguns vestígios de sangue, mas não havia sinais do coração do infeliz! 

Os investigadores e os físicos escreveram nos relatórios que, a morte do Ouvidor devia ter sido concertada entre os guardas de serviço, muito bem concertada, mas não conseguiam provar, porque, tinham sido interrogados até à exaustão e todas as respostas batiam certas, o coração e o sangue tinham desaparecido e, depois de virar a Vila de Monsaraz do avesso não tinham encontrado nada, a não ser na dita torre, mas não escreveram uma palavra sobre os gatos pretos e finalizaram escrevendo que, o processo ficava em aberto, esperando desenvolvimento sobre o misterioso crime!

 Quando a notícia da morte cruel do Ouvidor alastrou pela Vila de Monsaraz, toda a gente ficou chocada, não era aquele o castigo que desejavam, embora, ele tivesse condenado muitos inocentes à forca, mas o crime era muito hediondo e assustava muita gente! 

Quando começaram a ouvir dizer que, os guardas do castelo tinham visto os grandes gatos pretos a sair da cadeia e que se tinham sumido na torre da esquerda, na qual tinham encontrado sangue do Ouvidor, não tiveram dúvidas que os criminosos estavam descobertos, tinha sido obra das feiticeiras, decerto, o Ouvidor tinha condenado à forca, algum filho ou outro familiar inocente e fizeram justiça pelas suas mãos, por isso, a torre do castelo de Monsaraz onde os gatos pretos se sumiram naquela noite do crime, ficou a ser conhecida pela torre das feiticeiras! 

O Ouvidor foi sepultado sem coração, o qual, nunca mais foi encontrado e, ainda se encontra perdido, dentro, ou nas imediações do castelo de Monsaraz.

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Fotografia: Isidro Pinto 


sábado, 1 de maio de 2021

FRESCO EM MONSARAZ DO BOM E DO MAU JUIZ

  •  FRESCO EM MONSARAZ DO BOM E DO MAU JUIZ


Há em Monsaraz um fresco que encerra um mistério e que é caso único em Portugal: o Bom e o Mau Juiz é uma obra de arte inigualável em Portugal e de que ficámos a conhecer pistas para a sua interpretação.

Quando em 1958 uma intervenção nos antigos Paços do Concelho de Monsaraz revelou um fresco de dois painéis, a descoberta teve direito a primeiras páginas nos jornais. Percebeu-se imediatamente que se estava perante algo excecional, mas cuja real importância só ficou verdadeiramente estabelecida quando os historiadores de arte se debruçaram sobre o achado e deram o veredito: o tema do fresco é não só um caso único em Portugal como apenas tem paralelo com a alegoria do bom e do mau governo que existe no Palazzo Pubblico da cidade italiana de Siena.

O fresco de Monsaraz tem sido estudado desde então e ganhou mesmo um justificado protagonismo na bela localidade alentejana, sendo peça principal do Museu do Fresco, no largo principal da vila.

O fresco é composto por dois painéis sobrepostos, representando o primeiro a justiça divina e o segundo a justiça terrena. É aqui que encontramos o bom e o mau juiz, numa alegoria à aplicação da justiça que tem muito que se lhe diga

O primeiro mistério que o fresco apresentou aos historiadores foi o da sua data de execução. Os primeiros a debruçar-se sobre o assunto consideraram que era muito anterior ao que estudos posteriores vieram a demonstrar. Estamos perante uma peça de finais do século XV e hoje é quase consensual dar-lhe uma data precisa com uma história dentro. 

Primeiro, a descrição. Em cima, temos Cristo Pantocrator numa cena divina de Juízo Final do apocalipse. No painel de baixo é representada a justiça terrena e o bom e o mau governo. À esquerda vemos o bom juiz, mimetizando a postura de Cristo e ladeado por dois anjos. O bom juiz olha diretamente para quem vê o fresco e com o dedo aponta para o acusador. Do lado esquerdo surge o mau juiz, de duas caras e com o diabo a pôr-lhe a mão no ombro e a partir a vara de justiça. Este juiz é ladeado por duas figuras. Uma corrompe-o com dinheiro, a outra com perdizes, numa simbologia muito utilizada então.

A historiadora Ana Paula Amendoeira explica o fresco do Bom e do Mau Juiz

E é esta história que permite hoje aos investigadores apontar o ano de 1498 ou 1499 como o da data da execução do fresco, tendo sido seu mandante D. Jaime, 4º Duque de Bragança. Mas recuemos no tempo e nas personagens. Em 1483, reinava D. João II. Na sua tentativa de fortalecer a Casa Real levou muitos nobres a insurgirem-se. Entre eles, estava D. Fernando II, 3º Duque de Bragança e cunhado do rei.

D. Fernando terá conspirado contra o rei e procurado apoios em Castela e foi por isso julgado, condenado à morte e executado em Évora a 20 de junho de 1483. A audiência onde se determinou a sentença – conta Ana Paula Amendoeira – decorreu numa sala que D. João II mandou decorar com painéis alusivos à lenda da justiça de Trajano.

Trajano, recordou a historiadora “ia para a guerra quando foi abordado por uma mulher que lhe pediu que fizesse justiça a um criminoso. O imperador romano disse-lhe que o faria quando regressasse, mas a mulher disse-lhe que poderia morrer e não se faria justiça, pelo que o julgamento se fez logo ali. Acontece que o criminoso era o próprio filho de Trajano e, mesmo assim, o imperador condenou-o à morte”.

Com os painéis, D. João II mostrava ao que ia. D. Fernando II não esteve presente na audiência, mas um seu representante insurgiu-se contra o facto de o rei fazer parte dos 21 que compunham o tribunal, uma vez que era parte interessada.

Conhece-se a história. D. Fernando foi executado na Praça do Giraldo, em Évora, os bens da Casa de Bragança reverteram para a Coroa e os filhos do Duque, ainda crianças, foram levados para Espanha, onde cresceram.

Quando D. Manuel subiu ao trono anulou a sentença e devolveu terras e títulos à Casa de Bragança. D. Jaime, já adulto, regressa a Portugal já como Duque de Bragança e torna-se um dos favoritos do rei, de tal forma que este – já casado, mas ainda sem descendência – o nomeia seu herdeiro.

É isto que, afirma Ana Paula Amendoeira, permite aos historiadores avançar a tese de que o fresco terá sido pintado entre 1498 e 1499. Já fora da cercadura que rodeia os dois quadros do fresco, já muito desvanecido, é possível ver-se um brasão de armas. Este brasão foi estudado e chegou-se à conclusão que é da Casa de Bragança, mas com as armas do Reino de Portugal. Ora acontece que apenas em 1498 o rei deu esse privilégio ao ducado, quando fez uma viagem a Sevilha e antes de lhe nascer o primeiro filho.

D. Jaime, o 4º Duque de Bragança, pretendeu com este fresco reabilitar o seu pai, lembrando que a justiça nem sempre é cega, e fê-lo na sala de audiências de Monsaraz, por ter sido o alcaide desta localidade que o levou para Espanha no final do julgamento de Évora


O mistério está muito perto de ser explicado, mas ainda há questões por resolver e que se colocam depois de se ter uma leitura físico-química do fresco por Milene Gil, investigadora do Projeto Hércules da Universidade Évora.

Esta investigadora afirmou que a maioria da representação do Bom e do Mau Juiz foi feita ainda com a argamassa fresca, mas que o mesmo não aconteceu com o brasão. Terá sido pintado posteriormente? " Fonte: Jorge Montez em Portugal de lés a lés ". GOSTAVA SÓ DE ACRESCENTAR QUE O PEDREIRO QUE EM 1958 EXECUTAVA AS REFERIDAS OBRAS ERA O VILA REAL PAI DO NOSSO CONTERRÂNEO E MEMBRO DE ESTE GRUPO O António Bicas e QUE PERANTE TÃO INUSITADO ACHADO O COMUNICOU AO Sr TEÓFILO, TENDO AMBOS ENCAMINHADO O ASSUNTO PARA QUEM DE DIREITO.



quarta-feira, 24 de março de 2021

A LENDA DA MOURA ENCANTADA NA FONTE DA LESMA EM CAPELINS


A lenda da moura encantada na Fonte da Lesma, em Capelins

No ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil duzentos e trinta, no Domingo, dia vinte e quatro do mês de Março, os cavaleiros vilãos da cidade de Évora, reconquistaram a Vila de Odialuciuez (Terena), situada entre as Vilas de Juromenha e de Monsaraz que, sem fortaleza, o pequeno regimento que a defendia, cedeu facilmente às forças da cristandade depois de uma escaramuça que produziu algumas mortes e alguns feridos!
Os cavaleiros vilãos, tomaram as medidas de segurança e acamparam junto à Ribeira de Odialuciuez (Lucefécit), para tratar os feridos, descansar, organizar a logística e formar os grupos que, na madrugada seguinte, tinham de investir para sul, pelo vale da dita Ribeira e do Rio Odiana (Guadiana), para dominar pequenas bolsas de resistência concentradas nos Montes dos lavradores, apoiadas pelas tropas dos mouros instalados na Fortaleza mourisca de Monsaraz!
Durante a noite, os lavradores mouros residente a sul de Odialuciuez foram informados pelos espiões que, os cristãos tinham tomado aquela Vila e, preparavam-se para invadir as suas terras, pelo que, podiam fugir para Juromenha ou Monsaraz, ou podiam ficar e negociar com os cristãos, tornando-se seus servos!
Alguns senhores mouros, durante a noite, abandonaram os seus Montes e fugiram com as famílias para aquelas fortalezas, onde, ainda havia segurança, porém, outros ali nascidos, em terras já de seus avós, ficaram a tentar a sua sorte!
De madrugada, as forças cristãs saíram da Vila de Odialuciuez - Terena - e, cerca de duas horas de caminhada sem paragem, chegaram junto de um grande Monte, era o atual Monte do Escrivão, onde foram emboscados por um grupo de rapazes armados de varapaus, facas, espadas e outras armas artesanais, mas foram encostados às paredes pelos cavaleiros, desarmados sem ferimentos, apenas levaram alguns açoites e grandes puxões de orelhas, obrigando-os a contar-lhes tudo o que queriam saber sobre o rico lavrador mouro dono daquele Monte!
Os cavaleiros vilãos ficaram a saber que, o lavrador não queria deixar o Monte onde tinha nascido, mas com receio que os cristãos fizessem mal à família, principalmente à filha chamada Aniza considerada a rapariga mais linda da região de Odialuciuez, à última hora, tinha decidido partir para a Vila e Fortaleza de Monsaraz!
Os cristãos, ficaram a saber a que horas tinham partido e qual o caminho seguido na direção de Monsaraz e, os rapazes mouros contaram-lhe que, por motivo de maior segurança, a caravana tinha descido o vale da Ribeira, pelas terras do lavrador, pela atual Talaveira e Roncão e, ao fundo viravam pelo caminho que o guerreiro mouro Azavel usava com os seus mil cavalos, quando descia de Badajoz, pelo vale do rio Odiana até Monsaraz!
O lavrador mouro e a respetiva caravana levavam mais de duas horas de avanço, mas como o caminho estava muito mau, devido às grandes chuvadas de Abril, a sua marcha era muito lenta e quando chegaram à famosa Fonte do Amir (principe árabe), pararam a descansar e a abastecer daquela nobre água, não só por ser da melhor que existia na região, mas porque, já não podiam parar até Monsaraz!
Quando estavam preparados para continuar, chegaram alguns espiões e criados do lavrador a informá-lo de que os cristãos estavam mesmo a chegar, já se ouviam os cascos dos seus cavalos e seria melhor render-se e negociar, do que encetar uma fuga que podia acabar em tragédia!
O lavrador mouro começou por negar a rendição e mandou preparar os seus homens para receber os cristãos, mas disseram-lhe que era uma grande força, com homens bem armados e se não se rendessem, morriam todos, incluindo a sua família, mas se negociasse, podia ficar servo dos cristãos, mas só até que o exercito mouro do Califado de Córdova que vinha a caminho, os libertasse, ou em último caso, mais tarde podia ter a oportunidade de fugir para Monsaraz!
O lavrador ficou uns instantes a pensar na proposta e achou que fazia sentido, mas naquele momento lembrou-se da sua linda filha Aniza que, decerto não seria respeitada por aqueles cães cristãos, ainda pensou em a esconder por ali, mas eles acabavam por a encontrar e seria pior, então, fez-se luz no seu pensamento, tinha de a encantar, depois, quando viesse o exército de libertação, seria desencantada e tudo voltava ao normal, não tinha dúvidas de que seria a melhor maneira da filha ficar livre das garras dos cristãos!
Com a aproximação dos cristãos, a pressão dos presentes subia cada vez mais, o lavrador chamou junto de si a mulher e a sua linda filha Aniza e contou-lhes o que estava a pensar, explicou-lhes que, perante a situação, não encontrava outra alternativa, elas olharam uma para a outra e, sem contestar, concordaram com a ideia!
O lavrador, apressadamente explicou à filha o que tinha de fazer quando fosse desencantada, entregava o tesouro que fazia parte do desencantamento, o qual, ficava escondido, debaixo das pedras da Fonte do Amir e, se aquelas terras estivessem sobre o domínio dos cristãos, seguia, rapidamente para a moirama, caso contrário, ele encarregava-se de a mandar desencantar!
A cavalaria cristã ouvia-se cada vez mais próxima, já tinham atravessado o atual Ribeiro do Carrão e, o lavrador começou a dizer as palavras mágicas, quando chegou o momento de escolher o animal ou objeto, no qual a filha devia ficar encantada, não conseguia encontrar nada à mão, mas viu uma lesma tão bonita, tão elegante, com os corninhos de fora a subir as pedras da Fonte do Amir e, como não podia esperar mais, disse à filha que ficava encantada naquela linda lesma e seria desencantada com dois beijos de um jovem pastor, a filha anuiu e desapareceu, quase ao mesmo tempo, surgiram os cristãos na sua frente, o lavrador caiu de joelhos em sinal de submissão e, só se levantou, quando um oficial que comandava o regimento o mandou levantar, afastaram-se da Fonte e o oficial fez-lhe algumas perguntas, às quais, ele respondeu com muita humildade e prometeu ser seu servo, deixando-o convencido que lhe dizia toda a verdade e estava submisso aos cristãos!
Alguns cavaleiros cristãos, procuraram a sua filha, como não a encontravam, tentaram saber do seu paradeiro, ele respondeu que, tinha seguido diretamente por outro caminho, para a Fortaleza de Monsaraz e, decerto, já lá estava! Os cristãos, não ficaram muito convencidos, mas perante a atitude do oficial que, não o questionou sobre isso, não insistiram com mais perguntas e ficaram por ali!
Depois de tudo tratado, naquele lugar, alguns cavaleiros e infantes, voltaram com o lavrador e a caravana para o Monte - do Escrivão - onde foram efetuadas as negociações, quanto à posse das terras, dos gados e do tributo a pagar ao futuro senhorio, ficando o lavrador a explorar as terras mediante um pesado tributo e, depois de bem abastecidos de boa comida, a maioria dos cavaleiros vilãos seguiram para outros Montes, sempre com os olhos na Fortaleza de Monsaraz, onde estava um grande regimento mouro que podia sair ao seu encontro a qualquer momento!
O lavrador mouro, aceitou todas as condições que lhe foram impostas, não só, por não ter outra alternativa, mas na esperança de que seria por pouco tempo, porque, lhe diziam que o exército mouro do Califa de Córdova, devia estar a chegar, mas não chegou e, Juromenha, Monsaraz e toda a região do Odiana, logo a seguir, cerca de 1232, caíram nas mãos dos cristãos, por isso, o lavrador mouro e a sua família, desesperados, fugiram para as terras da moirama, senão, seriam servos dos cristãos, o resto das suas vidas!
A sua linda filha Aniza ficou para trás, encantada em lesma na Fonte do Amir, onde esteve durante muitos séculos, não por falta da presença de jovens pastores, mas devido ao animal em que estava encantada que, não cativava os rapazes a dar-lhe os dois beijos que ela lhes pedia, além de, ser uma lesma falante assustava os rapazes, obrigando-os a fugir da Fonte, muitas vezes sem encher o barril de água!
A lesma, só podia sair do seu esconderijo no tempo tépido, porque, não suportava muito frio, nem muito calor, sendo mais uma desvantagem, reduzindo as oportunidades em fazer as propostas do seu desencantamento aos jovens pastores que ali se dirigiam à Fonte!
Quando esta situação começou a ser falada pela região, ninguém acreditava nos rapazes, porque era impossível haver lesmas falantes e, diziam que era alguma feiticeira, ou invenção dos rapazes e a Fonte começou a ser conhecida pela "Fonte da Lesma"!
Quando os rebanhos da serra da Estrela começaram a descer para as pastagens do Alentejo, na transumância, eram acompanhados por muitos rapazes que ajudavam os pastores, chegavam em Novembro e partiam em Março ou Abril, mas alguns rapazes, ou porque arranjavam cá namoradas, ou porque as suas famílias eram numerosas e muito pobres, passando muito mal, preferiam ficar por cá e, foi o que aconteceu com o Manel Catrino que, ficou de ajuda do pastor da herdade do Aguilhão! Como habitualmente, um dia o pastor mandou-o buscar água à Fonte da lesma, por ser muito boa, servia de mesinha, o Manel Catrino era um rapaz que andava sempre bem disposto, cantando ou assobiando por todo o lado, passou ao Porto do Aguilhão, por cima das passadeiras, desceu a Ribeira de Lucefécit e, assim que chegou à dita Fonte, ouviu uma linda voz que, era a da moura Aniza:
Aniza: Bom dia, jovem pastor, não te assustes, eu não faço mal a ninguém, sou uma moura encantada numa lesma, chamo-me Aniza e tu como te chamas?
Manel Catrino: Olha, olha, já me tinham contado que andavam por aqui lesmas falantes e eu não acreditava, agora já acredito, eu sou o Manel Catrino, da Póvoa Nova, la da serra da Estrela, mas não sou pastor, sou o ajuda do pastor além do Aguilhão, então, agora que já nos conhecemos, diga-me lá, o que que vocemecê me quer?
A moura Aniza sentiu que, tinha chegado o fim do seu encantamento, nunca nenhum rapaz lhe tinha respondido e, muito menos, se tinham prontificado a ouvi-la!
O Manel Catrino sentou-se numa pedra da Fonte e com muita calma, ouviu o historial da vida da moura sem a interromper, só assobiava em sinal de admiração pelo que ouvia, por fim, colocou-lhe algumas dúvidas sobre o desencantamento que ela rapidamente esclareceu e, sem mais perguntas, quando ela lhe disse que podia avançar para a beijaria, nem hesitou, ele que até beijava as ovelhas ronhosas, quanto mais uma lesma, deu-lhe os dois beijos com tanta sofreguidão entre os corninhos, que quase a engolia, naquele momento, ela transformou-se na mulher mais linda que o Manel Catrino alguma vez tinha visto na sua vida, ficou tão atarantado e assustado que caiu de costas, a moura entregou-lhe o tesouro e desapareceu entre os arbustos da Ribeira de Lucefécit!
Quando o Manel Catrino se conseguiu erguer, meteu a mão no tesouro para se certificar o que estava dentro do saco, deu umas chapadas com força nele próprio, para ter a certeza que não era um sonho e lembrou-se de ir procurar a linda moura, correu, correu, pela Ribeira abaixo até chegar ao Rio Odiana, ao pego de Dona Catarina, na esperança de a encontrar nas suas margens, ou a atravessar o rio, mas nunca mais viu sinais da linda moura Aniza!
O Manel Catrino, ficou com as ideias baralhadas, não imaginava o que fazer com aquele tesouro, pensou em o levar para dividir com o pastor, mas em boa hora se arrependeu, porque, decerto, ficava sem ele, então decidiu escondê-lo num lugar bem seguro debaixo de uns rochedos e, mais tarde com calma logo decidia o que fazer, escondeu o tesouro e foi encher os barris de água e seguiu para a herdade do Aguilhão, no outro lado da Ribeira, quando lá chegou com muitas horas de atraso, o pastor estava cheio de sede, deu-lhe uma surra tão grande que o deixou todo derreado e em grande sofrimento durante alguns dias, mas abriu-lhe os olhos, por pouco tinha contado tudo ao pastor, mas ele nem o deixou falar e essa surra, foi uma grande lição para o Manel Catrino!
Quando melhorou, disse ao pastor que ia voltar para a serra da Estrela, porque, estava com muitas saudades dos pais e dos irmãos, o pastor fartou-se de rir na sua cara e disse-lhe que, se queria passar fome, podia ir, mas nunca mais ali punha os pés naquela herdade do Aguilhão, porque se ali voltasse seria corrido a pontapés, mas ele, tinha tanto medo do pastor e foi-se embora dali!
O Manel Catrino, agora era um rapaz muito rico, dono de um tesouro, mas muito pobre, porque, não podia dispor dele, ninguém ia acreditar que o tinha recebido, honestamente devido ao desencantamento de uma moura, então, ficou pelas terras de Terena e de Capelins, o mais próximo possível do esconderijo do seu tesouro e, teve de andar mais de cinco anos em ajuda de gado e em trabalhos agrícolas, sempre, procurando saber a maneira de trocar o tesouro, ou parte dele, por dinheiro, para realizar o seu grande sonho, comprar uma herdade!
Já senhor de si, conseguiu saber que, moravam uns judeus muito ricos, na Vila de Borba que compravam moedas de ouro, pratas, pedras preciosas e jóias, um dia foi procurá-los, mas não levou nada, disse-lhe que tinha umas coisitas, cordões e outras peças que lhe pareciam ser de ouro que tinha achado quando era pastor e como não lhe serviam para nada, queria vendê-las! Os judeus, ficaram de olhos arregalados e nem quiseram saber onde os tinha achado, disseram-lhe que os fosse buscar já, que ficavam com tudo!
O Manel Catrino era muito fino, não teve pressa, quem esperou mais de cinco anos, espera mais um mês, pensou ele, e se o pensou, melhor o fez, só passados mais de um mês, com segurança, foi ao esconderijo onde estava o seu tesouro, escolheu algumas peças, meteu-as nos bolsos de umas ceroulas e montado na sua burra, voltou a Borba! Os judeus assim que o viram, lembraram-se dele e apanharam as peças de ouro com as duas mãos para observar bem, e ficaram sem palavras, avaliaram as peças por pouco mais de metade do seu valor, mas o suficiente para o Manel Catrino não acreditar no valor que ouvia, pelo que, nem regateou, não houve muita negociação, ele aceitou o que lhe ofereceram! Os judeus mandaram chamar o Tabelião da Vila de Borba para assistir ao negócio e ao pagamento, parte em dinheiro e outra parte numa moratória, uma escritura de juro, com o compromisso do pagamento no prazo de um mês!
Depois de tudo tratado o Manel Catrino foi para Vila Viçosa e, dirigiu-se ao Tabelião dessa Vila para o ajudar na compra da herdade, foram ter com um Procurador que tinha algumas herdades para vender, com o qual, negociaram três herdades nas terras de Terena e Alandroal!
Quando os processos da compra/venda das três herdades ficou resolvido, o Manel Catrino foi tomar posse das suas herdades e dos gados que tinham entrado no negócio e a conhecer os criados, feitores e, principalmente os pastores que tinham muita importância, era deles que dependiam os rebanhos e a boa produção, então, na sua última herdade, o feitor mandou chamar o pastor e explicou-lhe que estava ali o novo dono da herdade que queria ter uma conversa com ele, o pastor chegou de chapéu na mão, em sinal de respeito, o feitor anunciou o novo lavrador e o Manel Catrino estava de costas voltadas, a fingir que olhava para a propriedade, o pastor deu-lhe os bons dias e quando ele se virou, o pastor viu quem era e lembrou-se o que lhe tinha dito, que se algum dia, ele voltasse ali à herdade o corria a pontapés dali para fora, caiu de joelhos na sua frente a pedir-lhe perdão! O lavrador Manel Catrino, deu uns passos em frente e com muito respeito colocou-lhe a mão no ombro e disse-lhe para se levantar, estava perdoado e tudo esquecido, continuava a ser o seu pastor, porque, o mal que lhe tinha feito do passado já não tinha remédio e nunca era tarde para ele ser melhor pessoa!
O pastor levantou-se, beijou-lhe a mão e disse-lhe que nunca mais esqueceria aquele gesto, compreendeu as palavras do Manel Catrino e prometeu-lhe que seria isso que ia fazer o resto da sua vida, e fez!
O Manel Catrino casou-se com uma rapariga muito pobre, já sua namorada antes de comprar as herdades, amavam-se muito, à qual, contou toda esta história e depois aos filhos, mas nas terras de Capelins diziam que, a sua fortuna provinha da venda de um bocado da serra da Estrela que estava cheia de ovelhas, de uns tios que não tiveram filhos! O Manel Catrino e sua esposa a Catarina, como era normal nessa época, tiveram muitos filhos que foram lavradores nas terras de Terena e de Capelins e, donos de alguns Moinhos do Rio Guadiana e das Ribeiras de Lucefécit e do Azevel!
O Manel Catrino, continuou a cantar e a assobiar pelas suas herdades até ao dia em que foi prestar contas ao Senhor, sendo, nesse tempo, o homem mais opulento das terras de Capelins e de Terena!
A Fonte da lesma, em Capelins, continuou a oferecer boa água, até ao dia em que foi submersa pelas águas da Albufeira do Grande Lago de Alqueva, que lhe usurpou a sua água e a sua história.
Fim
"Texto de Correia Manuel em Amigos de Capelins"
     A Fonte da Lesma, em Capelins, fica nesta área.