MEMÓRIAS DA MINHA ALDEIA “OS COELHOS NO PALHEIRO DO TI RELA”
Este blog têm por objetivo, divulgar e preservar a cultura, história, lendas e tradições de Monsaraz e suas gentes.
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2023
OS COELHOS NO PALHEIRO DO TI RELA
sábado, 28 de janeiro de 2023
O TI BOLAS E O ALMOÇO NA CHANCANA.
O TI BOLAS E O ALMOÇO NA CHANCANA.
terça-feira, 10 de janeiro de 2023
MEMÓRIAS DO GUADIANA
MEMÓRIAS DO GUADIANA
São inúmeras as vezes, que já aqui referi em anteriores textos, a relação de proximidade, que todas estas povoações ribeirinhas, tinham com o Guadiana. No caso da Freguesia de Monsaraz, essa relação era transversal a todas as aldeias, sendo no entanto mais forte, em função da menor distância, a que estas se encontravam do rio, Ferragudo Telheiro e Monsaraz, eram aquelas que sentiam que do Calvinos ao Mendonça era o seu pedaço de rio.
Muitas são as memórias desse rio e desses tempos, memórias de alegria, de tristezas e algumas de um misto de sentimentos, que ainda hoje a mente teima em não querer recordar.
Não sei ao certo quantos anos teríamos, mas há muito que a puberdade tinha ficado para trás, seriamos talvez mocetões de 18 ou 19 anos.
Os invernos eram mais chuvosos e os ribeiros alimentavam o Guadiana com um caudal bastante forte até ao início do verão. O Guadiana era vida feita de ciclos e para trás tinham ficado as grandes cheias com a fertilização das margens e a subida das bogas pelos ribeiros, fazendo de Março e Abril, os meses da desova do Barbo, que consequentemente traziam ás cascalheiras, a jusante do Gato, uma abundância enorme de peixes, qualquer método de pesca era eficaz, recordo o saudoso Joaquim Cardoso, que quando pescávamos à linha na cascalheira do Gato, sempre metia dois anzois na ponta da linha, quando caía o primeiro sempre comentava! Um já lá está agora é só esperar que caia o outro, a abundância era de tal ordem, que era normal cada anzol trazer um peixe. Era a época da Tarrafa (rede de pesca) bastava deixar anoitecer e duas ou três tarrafadas na cascalheira era cesto cheio, foi numa dessas noites de pesca, que apanhei o maior susto da minha vida, e que mantive em segredo até quase aos dias de hoje e que a mente continua a ter medo de recordar.
Os barbos andam malucos! Logo a noite devíamos ir a eles! Dizia-me o Zip (alcunha do Joaquim Inácio), a reposta era quase sempre a mesma. VAMOS! Desta vez além do Zip e Eu levámos também o ti Miguel Latoeiro (pai do Zip) tendo em consideração que o Zip era o mais novo dos irmãos à época o Ti Miguel seria homem a rondar os 60 anos, já não me recordo como fizemos o percurso até ao moinho do Gato, mas provavelmente de motorizada, chegamos ao rio e havia que transpo-lo para o lado da cascalheira, que ficava do lado de Mourão. Não me recordo de quem era o barco, se do ti Joaquim Peixeiro ou do Paulino, mas havia sempre a montante do açude junto ao moinho um barco típico do Guadiana, que independentemente de quem fosse o dono, era chegar e utilizar, dado que nessa época quem por aqui deambulava era tudo gente conhecida. Atarrafas, lanternas e cestos para o peixe tudo dentro do barco e lá vamos nós na expetativa de uma boa pescaria, tanto eu como o Zip apesar de mocetões, mas por via das circunstâncias e proximidade com o rio éramos barqueiros experimentados, todos sabíamos que o açude do Gato tinha um enorme rombo que com o caudal que se fazia sentir tudo sugava com uma força aterradora, projetando toda a sua ira nas rochas a jusante do referido buraco.
Atravessar o rio a partir do moinho do Gato, pressupunha subir perpendicularmente junto a margem, 100 ou 200 m metros e só depois atravessar. Teimosia de velhos quis o Ti Miguel esse dia levar ele o barco, a noite estava escura como breu, mesmo com as lanternas o campo de visão não ultrapassaria 15 ou 20 metros. Ti Miguel olhe que tem que subir junto a margem e só depois atravessar se não, a força do rombo arrasta-nos! Recomendava eu. Está bem! Está bem! Dizia o Ti Miguel com a convicção de que naquela idade já se sabe tudo. Não sabemos ao certo se não subiu o suficiente, ou por deficiente forma de remar, foi o barco perigosamente e sem que nos déssemos conta, aproximando do rombo do açude, persentindo que algo não estava bem e, porque já era audível o assustador sussurro das águas, acendemos as lanternas e assolou-nos um tremendo calafrio, estávamos a escassos metros de uma morte certa, de onde o Ti Miguel já não nos conseguia tirar, de um gesto vigoroso e enérgico, próprio de quem sabe que está a 5 ou 6 segundos de uma enorme tragédia, o Zip derrubou literalmente o Ti Miguel do banco do remador e com o vigor próprio da juventude, lutou desesperadamente durante algum tempo, para tirar o barco daquela situação, a força exercida pelos remos, era igual à força da corrente e o barco mantinha-se estático, como flutuando entre a vida e a morte, vieram há memoria os pais, as namoradas e toda uma vida que ficava por viver, quiz Deus ou alguma força divina, que após estes angustiantes minutos o barco saísse daquela situação.
Não sei se o Zip já contou a alguém, mas subconscientemente, fizemos um pacto de silêncio, que só hoje, passados mais de 50 anos conseguimos falar do assunto. Mesmo assim, tenho SAUDADES DO GUADIANA.
terça-feira, 13 de setembro de 2022
A LENDA DO MILAGRE DO SENHOR DOS PASSOS E DA PROCISSÃO DA BURRINHA EM MONSARAZ
Monsaraz A Caminhar
História, lendas e tradições da Vila de Monsaraz
A lenda do Milagre do Senhor dos Passos e da procissão da burrinha em Monsaraz
segunda-feira, 5 de setembro de 2022
A LENDA DO MILAGRE DO SENHOR DOS PASSOS, QUANDO ESCONDEU MONSARAZ
A lenda do Milagre do Senhor dos Passos, quando escondeu Monsaraz
História, lendas e tradições da Vila de Monsaraz
A lenda do Milagre do Senhor dos Passos, quando escondeu Monsaraz
segunda-feira, 1 de agosto de 2022
quinta-feira, 5 de maio de 2022
A LENDA DA MOURA ENCANTADA E DO AJUDA DE GADO DE MONSARAZ
A lenda da moura encantada e do ajuda de gado de Monsaraz
domingo, 20 de março de 2022
A LENDA DO ABASTECIMENTO DE ÁGUA A MONSARAZ
| Fonte do Telheiro |
A LENDA DO ABASTECIMENTO DE ÁGUA AO POVO QUE MORAVA NO CÉU, EM MONSARAZ
Num Domingo do mês de Outubro de outros tempos, durante o almoço, o avô disse ao neto que, a seguir iam dar um passeio, para ele ver uma obra de alvenaria no Monte Novo do Seixo, perto de Montes Juntos, o neto vibrou de alegria porque, como sempre, seria mais uma aventura em companhia do avô!
Feitos os preparativos, saíram para sul em direção a Montes Juntos, estava um dia ameno, mas no céu havia nuvens soltas, formando grandes castelos, mas sem ameaças de chuva!
O neto, não cabia em si de contente e, falava, falava, fazendo comentários sobre tudo, o que viam pelo caminho, pedindo sempre a aprovação do avô, ficando muito vaidoso por já perceber dos assuntos dos homens!
Quando entraram na herdade do Terraço, avistaram a Vila de Monsaraz, e o neto não se conteve e começou a gritar, muito entusiasmado:
Neto: Avô, avô, olhe, olhe, lá está a tal terra no céu!
Avô: Qual Terra no céu? Ah! É Monsaraz! Então, no dia que fomos à lenha não te disse que além era Monsaraz?
Neto: Pois disse, avô, mas já viu que hoje não está no mesmo sítio do outro dia! Hoje até está do céu para cima!
Avô: Na verdade, até parece que tens razão, mas não tens, porque é ilusão, aqui da nossa posição parece-nos que está acima das nuvens, mas não está no céu!
Neto: Olhe que não sei avô, não sei, eu acho que está! Então se as nuvens estão no céu, aquela Terra ainda está mais para cima das nuvens, não pode estar noutro lado, senão no céu, ou para cima dele!
Avô: Já te disse que não passa de ilusão, mas que a Vila de Monsaraz está lá muito alta, isso está!
Neto: Então, o avô já lá foi?
Avô: Já, já, conheço muito bem a Vila de Monsaraz, é muito bonita!
Neto: Então e como é que o avô subiu lá para o céu? Por algumas escadas?
Avô: Oh neto, toma lá tato, a Vila de Monsaraz fica num outeiro muito alto, mas não é no céu, daqui é que parece que está pregada ao céu, mas não está! Quando lá fui, subi por uma ladeira que os homens fizeram para subir e descer a buscar as coisas que lá precisam!
Neto: Avô, têm vir buscar tudo cá abaixo, porque não têm nada lá em cima?
Avô: Têm lá muita coisa, mas vai quase tudo cá de baixo!
Neto: Levam quase tudo para cima, menos água, não é avô? Ela vem lá de cima, devem ter lá muita água! N
Avô: Não, neto, pelo contrário, esse é um dos maiores problemas da Vila de Monsaraz, porque a água que bebermos, nasce na terra, como lá em cima é tudo rochas, assim, o povo de Monsaraz, também tem de descer e subir, com a água às costas ou carregada por cavalos, bestas e burros, embora lá fique alguma da chuva em cisternas, mas não chega para todos!
Neto: Eh avô, coitados, deviam passar lá muita sede!
Avô: Não, neto, não passavam sede, porque tinham muitas maneiras de fazer o abastecimento de água, não era fácil, mas tinham água! O avô já te conta como era feito o abastecimento de água à Vila de Monsaraz noutros tempos!
Sabes que, os primeiros povoadores que foram para lá morar, ainda antes dos Mouros, fizeram logo uma cisterna para guardar a água da chuva e essa água durava para muitos meses, mas nesse tempo, as pessoas desciam as encostas do Monte todos os dias, a trabalhar nas terras e a guardar o gado e, quando voltavam a casa levavam cá de baixo, das Fontes, a água que precisavam para beber!
Depois, de ser dos portugueses a Vila de Monsaraz começou a crescer e o Rei D. Dinis mandou acrescentar e reforçar o Castelo e nessa altura fizeram uma cisterna e um poço lá dentro, para abastecer de água quem lá morava, assim como a guarnição militar e para terem água em caso de cerco pelo inimigo!
Com o passar do tempo a população foi aumentando, tinha cada vez mais pessoas, logo, era preciso mais água, porque sem água ninguém vive, então, o governador mandou abrir um poço muito fundo, chamado poço D' El-Rei que, forneceu água aos moradores de Monsaraz durante muitos séculos, porém, deixou de ser suficiente e tiveram de encontrar outras maneiras de ter mais água e, na centúria de 1500, a Câmara mandou construir uma grande cisterna na praça da Vila, à qual chamaram cisterna da Vila com grande capacidade, era o reservatório de água mais importante da Vila e recolhia as águas das chuvas que caiam nos telhados de quase todas as casas da rua principal, chamada Rua Direita e, um sistema de caneiras faziam entrar a água nessa cisterna. pelo que, quando chovia ficavam com muita água para todos, mas em anos secos, quando chovia pouco, havia falta de água e tinham de a carregar lá para cima!
No início dos anos de 1800, a cisterna da Vila estava muito danificada, descuidaram-se em a arranjar e começou a faltar a água, então a Câmara mandou abrir um poço na praça da Vila, com sete a dez metros de fundo, porque, pensavam que resolviam o problema, mas esse poço dava pouca água e sem qualidade, acabando por desaparecer e convenceram-se que, o melhor reservatório de água era a cisterna da Vila e foi arranjada!
Ainda havia outra cisterna em Monsaraz, mas era privada e estava no interior da casa do Juiz de Fora, o homem mais rico da Vila, à qual, os moradores não podiam chegar!
O abastecimento de água à Vila de Monsaraz, ao longo dos tempos, foi feito por três cisternas, contando com a da praça do castelo e a particular e por três poços, o poço D' El-Rei, o poço da praça da Vila e o poço da guarnição também dentro do castelo, mas desde sempre, os montessarenses, recorreram às Fontes de boas águas em vários lugares nos arredores da Vila, sendo mais conhecidas, a Fonte do Telheiro, a Fonte dos Poços Novos e a Fonte da Colaça, sendo o transporte da água a partir dessas Fontes feito em cântaros de barro às costa dos moradores, ou em cavalos, mulas e, principalmente pelos aguadeiros, os homens que vendiam a água às portas das casas na Vila, andavam todo o dia, desde madrugada, descendo e subindo as ladeiras, chegando quase ao esgotamento e muitas vezes o cansaço era tanto que para subirem, tinham de agarrar a cauda dos burros para os ajudarem a subir, mas nunca negavam água aos montessarenses!
Sabes que, nenhuma Fonte forneceu tanta água e de boa qualidade, à Vila de Monsaraz, como a Fonte do Telheiro, a qual, mesmo nos anos muito secos, quando secavam todas as Fontes na região, esta, deu sempre água em abundância!
Neto: Então, assim as pessoas que moravam lá no céu, não passavam sede?
Avô: Nâo, neto, de uma maneira ou outra, tinham sempre água, quando chovia todas as vasilhas serviam para apanhar a água dos beirais, até os tachos e as panelas, porque a água da chuva é muito boa para beber e para cozinhar, não há melhor água para cozer os grãos e o feijão e, além disso, como te disse, a dita Fonte do Telheiro nunca deixou de lhes dar água em abundãncia!
Neto: Eh, avô, eu gostava muito de ver essa Fonte e aquela Terra no céu!
Avô: Fica descansado neto, um dia vais conhecer isso tudo.
Assim, durante a viagem, o avô contou ao neto, à sua maneira, o que sabia sobre o abastecimento de água, durante séculos, aos moradores da Vila de Monsaraz.
Fim
Texto: Manuel Correia Manuel Fotografia: Isidro Pinto
terça-feira, 15 de fevereiro de 2022
A ORIGEM DAS CALÇADAS DE MONSARAZ
IMPORTANTE E BONITO TEXTO DO NOSSO AMIGO Francisco Capelas SOBRE A ORIGEM DAS CALÇADAS DE MONSARAZ
Monsaraz
As antigas calçadas das ruas da vila e dos seus acessos.
Sabe-se que , ao lado da posse de altos cargos administrativos e de títulos nobiliárquicos os nobres portugueses continuaram no século XV a receber diversos privilégios fiscais .
Em tempos de D. João I, Monsaraz e o seu termo foi integrado na sereníssima Casa de Bragança, por doação de D. Nuno Alvares Pereira em 1422, ao seu neto D. Fernando passando em matéria de tributação fiscal, a constituir um dos mais preciosos e fartos vínculos desta grande casa ducal portuguesa.
Desde os tempos de D. João I , era uma terra imune, por ser couto de homiziados, destinado a atrair moradores e a tentar a sua expansão demográfica a custa de criminosos foragidos à justiça e recrutados na escória Humana do Pais, caracterizada pelo não pagamento de impostos à coroa, onde a entrada de funcionários régios era proibida, e onde todas a funções administrativas dependiam da sereníssima Casa de Bragança, que nomeava o juiz ou ouvidor para fazer justiça, o cobrador de impostos, vigários e meirinhos, e onde também mantinha as suas próprias tropas.
Na história de Monsaraz, encontramos períodos de graves e perigosas crises de despovoamento derivado ao fato da vila ser «fragosa e de má serventia» situação ,aliás, que originava um fenómeno periódico e repetido, com carater fatalista , dadas as frequentes crises demográficas.
A sua importância estratégica como povoação fortificada próxima da fronteira com Castela, recomendava o seu forte povoamento, e para isso havia que criar condições que levasse a fixação dos seus moradores.
Por isso D. Afonso V nas cortes de 16 Dezembro de 1439,terá atendido de imediato aos apelos formulados pelo procurador do concelho, concedendo a Monsaraz todos os privilégios.(1)
O grande investigador da história regional Dr. José Pires Gonçalves escreveu a propósito o seguinte:
«E tão grave se manifestou esta crise demográfica que , nas cortes celebradas em tempos de D. Afonso V, o procurador do concelho de Monsaraz, Diogo Lourenço, apelou ao rei e solicita para os moradores da vila e do seu termo, como medida repovoadora, a isenção dos tributos a que se encontravam obrigados, alegando ainda, à concessão com clarividência politica, que essa isenção devia ser extensiva «aos judeus e mouros que ali fossem morar»
O rei com exata noção da realidade local, não só atendeu as reclamações formuladas por Diogo Lourenço em matéria administrativa e fiscal, como também, para facilitar o acesso dos moradores da vila, mandar pavimentar as congochas que pelos flancos do outeiro ascendem ás portas da muralha e alarga a sua generosidade até à conceção do grande previlégio urbanístico do calcetamento das ruas no interior da povoação.
Este calcetamento foi executado com material lítico pobre do Xisto regional e para maior segurança ambulatória das cavalgaduras e dos próprios homens, movendo-se nas ruelas de acentuado desnível, a técnica aplicada foi o da calçada em cutelo, com os toscos blocos de lage implantados de gume no leito da pavimentação, como ainda hoje ali de pode observar nos troços mais antigos do empedramento»(2)
Estes grandes obras de beneficiação da vila e dos seus acessos, terão decerto necessitado de muita mão de obra escrava, naquele tempo abundante no termo de Monsaraz.
Não conheço nenhum documento que me permita afirmar como verdade histórica, de onde foram extraídas as pedras de xisto necessárias para estes pavimentos, mas,… é na toponomia do tablado físico do antigo concelho de Monsaraz que ainda hoje existe o topónimo” Serra das Pedras”. Não me custa acreditar que terão sido dos afloramentos de xisto existentes naquela serra (próxima de Monsaraz), que terão sido extraidas as pedras para os penosos trabalhos de calcetamento das ruas e acessos á vila medieval de Monsaraz.
Texto: FRANCISCO CAPELAS
Fotos: Porta d´Évora -José Rosado de Carvalho
E Monsaraz A Caminhar
Referências:
(1)-A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, Livro 19, fól. 70
(2)-Monraraz- Vida morte e ressureição de uma vila alentejana-Joé Pires Gonçalves
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022
A lenda do Milagre do Senhor Jesus dos Passos no Terramoto de 1755
História, lendas e tradições da Vila de Monsaraz
A lenda do Milagre do Senhor Jesus dos Passos no Terramoto de 1755
Na madrugada do dia 01 de Novembro de 1755, a aurora não apresentava nenhum sinal diferente das anteriores, anunciava mais um lindo dia de sol brilhante e, mesmo sendo o dia de Todos os Santos, a vida do campo não podia parar, embora, as sementeiras estivessem feitas, o trabalho nunca acabava, assim, após assistirem à primeira missa da manhã, os moradores da Vila de Monsaraz, trabalhadores rurais, dirigiram-se aos respetivos Montes e herdades, mas os funcionários do Reino e da Sereníssima Casa de Bragança, a donatária da Vila, sendo feriado, estavam aliviados das suas funções e, com as suas famílias, foram assistir à Missa das nove horas na Igreja de Santa Maria da Lagoa!
Cerca das nove horas e trinta e cinco minutos, da manhã, a Vila de Monsaraz estremeceu com tão grande intensidade que, as suas muralhas, muito degradadas desmoronaram, imediatamente, assim como parte do Castelo, porém, os edifícios e as Igrejas do interior da Vila, pouco sofreram, apenas ficaram algumas rachas e cairam uns pedaços de paredes velhas e de rebocos, sem fazer nenhuma vítimas!
Naquela manhã, a Igreja de Nossa Senhora da Lagoa estava cheia de fiéis, a assistir à Missa de Nossa Senhora do Rosário que, era cantada com orgão e assistida por oito sacerdotes e, no momento em que a Igreja sofreu o grande impacto do terramoto, caiu muito pó e rebocos e, algumas Imagens foram afastadas dos lugares nos seus altares, os fiéis entraram em pânico, mas não houve nenhum perigo para as pessoas que se achavam na Igreja, apenas ficaram muito empoeiradas, sendo a sua proteção atribuída a Nossa Senhora do Rosário, a qual todos os fiéis durante o terramoto, com vozes e lágrimas invocaram!
Passados poucos minutos, ficou um medonho silêncio, sem ninguém se mover do lugar onde se encontrava, com receio que o seu movimento desencadeasse a queda das paredes e, começaram a ouvir-se gritos de aflição no exterior, porque, as pessoas não viam sair ninguém e pensaram que, a abóboda da Igreja de Santa Maria da Lagoa tinha desabado e estavam lá todos sepultados!
Assim que, o povo e as autoridades se certificaram da ausência de réplicas do terramoto, ainda desorganizados, começaram a correr pelas ruas, pelos campos, por todo o lado, à procura dos seus amigos e familiares, dando lugar a grande confusão!
O tempo foi passando e antes do meio dia, já havia grupos organizados para prestar ajuda, começaram por visitar as casas e os seus moradores, avaliando o nível de destruição e se era necessário dar alguma ajuda, foram entrando nos edifícios e nas Igrejas da Vila e, quando um grupo entrou na Igreja da Misericórdia deparou-se com um cenário que os deixou abismados, não mexeram em nada e, algumas pessoas saíram a correr a chamar as autoridades, os guardas, militares e padres e com eles veio muita gente atraída pelo alarido!
Na Igreja da Misericórdia, Nossa Senhora da Piedade com sua criança, tinha o seu lugar no segundo Altar colateral da parte da Epístola e, durante o terramoto caiu no meio da Igreja em frente de Nosso Senhor Jesus dos Passos, ficando a seus pés, em posição de suplício, por isso, foi logo assumido pelos devotos que Nossa Senhora movida da sua piedade se prostrou por terra a suplicar a seu Bendito Filho, para salvar a Vila de Monsaraz e seu Termo, (Concelho) da destruição, e de verdade, não houve ruína de relevo nos edifícios da Vila e, as gentes não sofreram o menor dano físico!
A notícia de que o Senhor Jesus dos Passos tinha feito um Milagre ao salvar a Vila de Monsaraz e seu Termo da destruição, depressa se espalhou e, em poucas horas o povo juntou-se na Igreja da Misericórdia, onde decidiram continuar a juntar-se durante nove dias seguidos a fazer Preces e no fim fizeram uma procissão e Missa cantada para lhe dar as graças!
Os montesarenses reconheceram o grande benefício, sem dúvida, que foi um Milagre, por isso, continuaram a dar as graças a Nosso Senhor Jesus dos Passos, tornando-se excessiva a sua devoção para com a sua soberana Imagem, havendo devotos que a visitavam todos os dias, mas o dia da visita comum, estava assente que seria às Sextas - Feiras!
Os montesarenses são muito devotos de Nosso Senhor Jesus dos Passos, continuando a venerá-lo, de entre outras formas de fé, através da realização da Festa em sua honra no segundo fim de semana do mês de Setembro.
Fim
Texto: Manuel Correia
Fotografia: Isidro Pinto
Nossa Senhora da Piedade - Monsaraz
domingo, 30 de janeiro de 2022
O TI GARRANA A VENDA DO BENTO E A TROVOADA
O TI GARRANA A VENDA DO BENTO E A TROVOADA
sexta-feira, 31 de dezembro de 2021
A TI ANA ROLA E O Dr. RAMOS
A TI ANA ROLA E O Dr. RAMOS
Não serão já muitos mas alguns conterrâneos haverá que ainda se recordam da tão carismática figura do doutor Ramos, médico veterinário de reconhecido valor e muito admirado nos concelhos de Reguengos, Mourão, Moura, não só pelas suas capacidades profissionais mas também pelo seu elevado sentimento humanista, muitas eram as vezes que aos pobres nada cobrava. Monsaraz desde os tempos mais remotos sempre viveu condicionada pelos difíceis acessos, uma das fornas de o minimizar era a utilização do gado muar, quase todas as famílias tinham um burro, para carregar a lenha, para ir buscar a água ou para lavrar as íngremes encostas, de onde com muito esforço arrancavam à terra, as batatas, os grãos, as favas e algum trigo ou centeio para o fabrico do pão. Era do conhecimento geral que não se podia deixar fartar os burros de palha de favas, creio por lhe causar obstipação podendo leva-los à morte. Por um pequeno descuido deixou a Ti Ana Rola que a burra comece mais palha de favas do que devia, passados já alguns dias e com a burra a piorar de dia para dia, não tiveram mais remédio que chamar o Dr. Ramos, que após imenso e árduo trabalho conseguiu salvar a burra. Aliviada por ver a sua burrinha fora de perigo pergunta a Ti Ana Rola ao Dr. Ramos, Dr. Quanto lhe devemos ? Deixa estar não te preocupes não é nada é de graça respondia este. Não cabendo em si de contente exclamou a Ana Rola, BENDITO SEJA O SR. DOS PASSOS QUE SE SALVOU A MINHA BURRINHA. Ai foi o Sr dos Passos !!! Eu é que me fartei aqui de trabalhar e agora foi o Sr. Dos Passos !!! vai lá buscar o dinheiro para me pagares que acabou-se o de GRAÇA dizia o Dr Ramos.
Obrigado amigo António Rodrigues (Marreneco) por mais este pedaço de história das nossas gentes.
"Texto e foto de Isidro Pinto"
quarta-feira, 29 de dezembro de 2021
A LENDA F O MILAGRE DO SENHOR JESUS DOS PASSOS
A Lenda do Milagre do Senhor Jesus dos Passos, em Monsaraz
Nos finais da centúria de 1500, uma rapariga chamada Maria Roseta, morava numa casa pequenina junto ao Castelo da Vila de Monsaraz, deixada por uma tia, vindas não se sabia de onde e, após a morte dessa tia, ficou a morar com o seu gato preto!
A Maria Roseta era muito pobre e franzina e toda a gente dizia que era feiticeira, porque sabia rezas e mezinhas, com as quais curava muitas maleitas, mesmo assim, não era respeitada pela maioria dos montesarenses e sempre que saia à rua era alvo de troça, risos, assobios e palavras ofensivas, mas muitas dessas pessoas ou familiares, quando se sentiam mal, em segredo, corriam a sua casa pedir-lhe ajuda e ela tratava todos os males com muita sabedoria e dedicação!
No dia 9 de Junho de 1594, era Corpo de Deus, e os ranchos já andavam a ceifar pelos campos de Monsaraz, cerca das 10 horas, quando as foices entravam pelas searas, o sol, repentinamente, desapareceu, os ceifeiros e ceifeiras ficaram assustados, pararam o trabalho e os seus olhos virararm-se para o lado do astro rei e viram uma nuvem negra que o ofuscava e não deixava passar a luz!
Os montesarenses ficaram aflitos sem perceber o que se estava a passar e pensaram que, seria alguma trovoada sem trovões, mas naquele momento começaram a cair milhares de gafanhotos esfaimados que consumiam os cereais como se fosse fogo! O combate aos insetos começou, imeditamente com tudo o que tinham à mão, mas era uma luta sem tréguas e não demorou a juntar-se gente á procura de ajuda ou de alguma solução para tão grande problema, mas apesar de surgirem muitas ideias, devido á desconformidade de insetos, depressa caiam por terra!
À medida que o tempo passava, a situação piorava, então, alguns montesarenses decidiram pedir ajuda à Maria Roseta, porque, diziam que ela sabia mezinhas para todos os males do mundo e não tinham outra alternativa!
Um grupo de homens e mulheres, correram pelas ladeiras de Monsaraz a pedir ajuda à Maria Roseta, mas ela respondeu-lhe que não tinha nenhuma mezinha para aquele mal, não podia fazer nada, perante a decepção e a insistência ela disse-lhe que sabia quem podia ajudar, deviam fazer, imediatmente uma procissão aos campos de Monsaraz com Nosso Senhor Jesus dos Passos!
Os montesarenses, não veneravam o Senhor Jesus dos Passos e interrogaram a Maria Roseta se a procissão não podia ser a outro Santo ou Santa? Ela afirmou que não, só podia ser o senhor dos Passos, então o povo já de cabeça perdida correram à Igreja da Misericórdia e a rezar levaram a imagem do Senhor dos Passos que tinha sido oferecida por D. Teodósio II, Duque de Bragança, poucos anos antes e, nem esperaram pelo Padre que quando se apercebeu partiu a correr com a batina ao pescoço atrás da procissão, mas assim que, a imagem do Senhor dos Passos saiu da Igreja da Misericórdia, os gafanhotos que já estavam nas terras de Monsaraz, começaram a morrer e quando avistaram a grande nuvém de gafanhotos, o sol quase, repentinamente, começou a brilhar, porque a nuvem desceu e os insetos começaram a cair mortos sobre as águas do rio Guadiana, sendo impedidos de alcançar os campos de Monsaraz!
O povo de Monsaraz não conseguia perceber o que tinha acontecido e, surgiram muitas versões sobre o acontecimento, no entanto, no dia seguinte a vida rural voltou ao normal, mas não se falava noutra coisa e o povo foi-se apercebendo do risco que correram, ficando cada vez mais claro que tinha acontecido um milagre de Nosso Senhor Jesus dos Passos que, os tinha livrado da praga de gafanhotos, logo da fome certa, por isso, tinham de encontrar uma forma de agradecimento, então, marcaram uma reunião popular, onde decidiram que entre outros atos de fé, todos os anos depois das colheitas a Vila de Monsaraz, por gratidão, fazia uma procissão ao Senhor Jeusus dos Passos no segundo Domingo do mês de Setembro e, como sabemos, essa tradição ainda hoje se mantém!
Ainda nessa reunião popular, alguém lembrou que, se o milagre tinha acontecido, devia-se à Maria Roseta, porque, ninguém imaginava pedir auxílio ao Senhor Jesus dos Passos, por isso, ela não podia ser esquecida e, naquele momento, alguns lavradores de Monsaraz que estavam presentes, prontificaram-se a dar-lhe uma casa nova e todos os bens alimentares, até ao fim da sua vida!
A partir daquele dia, os montesarenses que troçavam dela, mostraram-se arrependidos e, em vez de troçar, começaram a venerá-la e quando a Maria Roseta foi prestar contas a Deus, todos os montesarenses lhe prestaram homenagem de agradecimento, acompanhando-a até à sua última moradal
A casa da Maria Roseta, já não existe, porque teve de ser sacrificada para dar lugar à construção das novas muralhas da Vila de Monsaraz, durante a guerra da restauração.
Bem Hajam, Marias Rosetas!
Fim
Podemos garantir que, existem documentos régios de Castela dessa época, a testemunhar a ocorrência desta, ou de outras pragas semelhantes, de gafanhotos nesta região e que deixaram as populações a passar fome, porque esses insetos devoraram os cereais e as pastagens do gado.
Texto: Manuel Correia
Fotografia. Isidro Pinto
sexta-feira, 3 de dezembro de 2021
O BUNDA E A LEBRE DA RUA DIREITA
O Bunda e a lebre da rua Direita
Ao falar
de vizinhos apenas com uma casa de permeio morava o meu amigo Bunda, bom homem
com quem mantive e mantenho uma óptima relação de amizade. Era mais uma noite
de Agosto de um calor insuportável em que a única forma de amenizá-lo era abrir
as portas, não só para tornar o serão mais aprazível mas também para que as
casas refrescassem um pouco para o dia seguinte, não querendo perder pitada da
televisão estava o Bunda e a família, ti Rosa sua esposa e os filhos Domingos
José, Francisco, e José Domingos na sala de entrada, que normalmente neste tipo
de habitações alentejanas é também sala de estar. Na televisão o José Mestre
Baptista toureava já o segundo toiro, da corrida do campo pequeno, a falta de
nitidez do velhinho aparelho era notória queixava-se insistentemente a ti Rosa
ó Tonho és sempre a mesma coisa estou farta de te dizer para ires acima do
telhado arranjar a antena e tu nada, agora, está a dar a tourada e isto só se
vê esta chuva, o Bunda fazia ouvidos de mercador. Apesar de tudo isto, a
atenção era redobrada, apenas o José Domingos havia adormecido no camalho, as
portas estavam abertas de par em par e para que os mosquitos não entrassem a
única luz existente era a da televisão, a duzentos metros mais acima mais ou
menos junto á porta do Lumumba acabava de chegar um casal de turistas de meia
idade e que, supostamente, haviam morto uma lebre na estrada que se apressaram
a tirar do porta bagagens, para estupefacção de ambos assim que o abriram a
lebre ó pernas para que te quero e de um salto em escassos segundos já corria
rua abaixo, completamente desorientada corria agora na direcção do castelo, a
perseguição era feita não só pelo casal mas também por muita outra gente que
aquela hora estava sentada na rua ao fresco, a estupefácção era geral, até um
pachorrento cachorro que dormitava junto ao pelourinho não quis acreditar no
que os seus olhos viam e não demonstrou o menor interesse de correr atrás dela,
até que não se sabendo bem porquê resolveu a dita lebre entrar portas dentro
para a casa do Bunda, imagine-se o espanto e confusão a perseguição era agora
feita entre mesas e cadeiras e apenas com a luz que emanava da televisão. Não
me recordo como terminou este episódio mas suponho que nada bem para a lebre.
"Texto e foto Isidro Pinto"
sexta-feira, 24 de setembro de 2021
HOMENAGEM À MINHA TERRA NATAL MONSARAZ.
HOMENAGEM À MINHA TERRA NATAL MONSARAZ.
(Casa do Dr. Queimado)QUANDO DEUS CRIOU O MUNDO
PARA SUA OBRA OBSERVAR
SUBIU AO CIMO DE UM MONTE
PRA TODO O MUNDO AVISTAR
MAS O MONTE ERA BAIXINHO
O QUE A DEUS NÃO SATISFAZ
E DIZ PARA O MONTEZINHO
TU UM ALTO MONTE SERÁS
E O MONTE NESSE MOMENTO
CRESCEU COM TAL PRESTEZA
QUE DEUS POSTADO NO CIMO
VIA TODA A NATUREZA
COM TÃO LARGO HIRIZONTE
DEUS FICOU MUITO ENCANTADO
E DISSE SERÁS UM BELO MONTE
E POR MIM ABENÇOADO
UM ALTO MONTE SERÁS
E MUITO BEM POVOADO
DEUS AINDA ACRESCENTOU
E O NOME ENTÃO SE FORMOU
DESTA MINHA LINDA TERRA
QUE TANTA BELEZA ENCERRA
E SE CHAMA MONSARAZ
NASCIDOPOR DIVINA GRAÇA
HÁ EM TI MUITA BELEZA
ÉS UMA PÉROLA ENGASTADA
NO COLAR DA NATUREZA
ÉS UM CANTEIRO PERFUMADO
COMO OUTRO NÃO HÁ IGUAL
NESTE MEU PAÍS ADORADO
QUE SE CHAMA PORTUGAL
OH MONSARAZ
TU ÉS TERRA ABENÇOADA
SÃO PARA TI OS PRIMEIROS
SORRISOS DA MADRUGADA
OH MONSARAZ
TU ÉS DA PÁTRIA UM ALTAR
ONDE ALMAS DE HERÓIS
A HORAS MORTAS VÃO REZAR
OH MONSARAZ
ÉS A TERRA ONDE EU NASCI
E POR MUITO EU TE AMAR
FIZ ESTES VERSOS PARA TI
AUTOR: FRANCISCO CAEIRO QUEIMADO.
OBRIGADO Amigo José Jose Pereira por teres sido tão fiel depositário de esta pequena relíquia que tiveste a amabilidade de fazer chegar até mim. Nunca é demais recordar-mos este pequeno grande homem o Dr. Queimado
segunda-feira, 17 de maio de 2021
A LENDA DO OUVIDOR DA VILA DE MONSARAZ
A lenda do Ouvidor da Vila de Monsaraz
No ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e trinta, a Vila de Monsaraz estava no auge em termos sociais e económicos, sendo considerada a jóia da Sereníssima Casa de Bragança, repleta de gente influente, fidalgos, escudeiros e lacaios, alguns frequentavam a Corte do Rei D. João III, o Piedoso, mas devido à sua fama, também atraía muitos indesejados, maltezes, vadios e malfeitores que vagueavam em grupos pelo reino, em busca do que podiam apanhar sem trabalhar!
A Villa de Monsaraz, nessa época, estava a tornar-se uma terra sem lei e chegavam muitas queixas à Corte a pedir que fosse feita justiça, porque a Ouvidoria não tinha Ouvidor, facilitando a criminalidade, com a agravante da proximidade da fronteira com Castela, por onde entravam e saiam muitos criminosos!
Depois de confirmar o fundamento das queixas, o Rei D. João III, nomeou João de Sousa que, tinha fama de ter mão pesada contra o crime, ganhando com isso, o apelido de "sem coração" por ser impiedoso, para Ouvidor da Ouvidoria da Vila de Monsaraz!
Um Ouvidor era a designação dos magistrados ou juízes que superintendiam na justiça das terras senhoriais! As suas funções eram semelhantes às dos corregedores nas terras diretamente dependentes da Coroa! As terras sujeitas a corregedores eram chamadas comarcas ou correições e as sujeitas a ouvidores eram chamadas ouvidorias, como era o caso da Vila de Monsaraz, visto ser uma Vila senhorial, da dita Sereníssima Casa de Bragança!
Quando o Ouvidor, ou juíz João de Sousa chegou à Vila de Monsaraz, nos finais do segundo decénio de 1500, confirmou que, a justiça estava um caos, a cadeia era assaltada e, os presos libertados por grupos de malfeitores, portugueses e castelhanos, sendo necessário começar, imediatamente a repor a ordem e começou a fazer julgamentos apressados, bastava um homem bom, apresentar uma queixa, fundamentada e com as devidas testemunhas, se fosse caso de sangue, ou tentativa de homicidio, a sentença era a condenação à Forca, sem fazer mais averiguações, como era obrigação do Ouvidor!
A justiça do Ouvidor João de Sousa, o "sem coração", começou por ter bons resultados, porque obrigou muitos vadios e malfeitores a afastarem-se da Vila de Monsaraz e, aliviou a criminalidade, mas isso não alterou o seu método de fazer justiça, era Ouvidor, mas não estava para perder tempo a ouvir o que devia ouvir, dizia que, havendo testemunhas dos crimes, embora em muitos casos compradas, não era necessário ouvir ou investigar mais nada, condenando eventuais inocentes à Forca e, não aceitava os pedidos dos suplicantes, mesmo dos padres que, muitas vezes tinham provas que, os condenados estavam inocentes!
A justiça do Ouvidor, depressa caiu na injustiça, porque, aumentavam os que eram enforcados estando inocentes e nesses casos, havia pais que deixavam as casas cheias de filhos desamparados, com fome, revoltando qualquer homem justo, mas em nenhum caso o "sem coração" aceitava pedidos de clemência, mesmo que fossem de fidalgos ou dos padres de Monsaraz!
Enquanto os erros da justiça do Ouvidor foram sobre os mais pobres que, por medo, as famílias pouco se queixavam, não chegavam à Corte, mas quando bateu à porta dos mais influentes e o Ouvidor não atendeu aos pedidos de clemência, nem de mais investigação, começaram a chegar queixas ao Rei D. João III que, não dava resposta, porque achava que o Ouvidor estava fazendo um bom trabalho na Vila de Monsaraz e, os queixosos que, eram cada vez mais, secretamente, organizaram um grupo de apoio e planearam o afastamento do Ouvidor da Vila de Monsaraz!
O grupo dos queixosos tinha aliados do clero, vários padres, amigos e familiares na Corte que, começaram a investigar o passado do Ouvidor, ou seja, a procurar a existência de atos que o comprometessem e, não foi difícil descobrir que, tinha processos judiciais arquivados, por adulterar com mulheres casadas que, era crime, embora não lhe tivesse acontecido nada por falta de provas, mas ficaram a saber que, muito fácilmente perdia a cabeça por mulheres bonitas, logo, seria este o caminho que tinham de seguir para o apanhar em falso!
Nessa época, entre outros, residia e trabalhava na Vila de Monsaraz um tabelião, casado com uma mulher muito mais nova, era alta, esbelta, muito linda e vaidosa, com porte duvidoso que, não se poupava a expôr-se nos seus passeios pelas principais ruas da Vila, virando do avesso, a cabeça de muitos homens!
Não foi necessário muito tempo para o Ouvidor perder a cabeça pela mulher do tabelião, a tal ponto que, não se importava de dar nas vistas, talvez por se achar muito poderoso, uma situação que dava jeito ao grupo dos queixosos, os quais, com muito cuidado, começaram a registar, com testemunhas influentes, os encontros do Ouvidor com a mulher do tabelião, a data, horas e lugares onde se encontravam, reforçado com a acusação de desleixo pelo seu dever de Ouvidor que, depois era mal desempenhado, com erros e condenações de inocentes à Forca!
As provas foram reunidas durante meses e bem organizadas, com testemunhas muito conceituadas, homens bons, padres, lacaios, lavradores e outros, sendo o processo enviado ao rei D. João III debaixo de grande segredo, na acusação escreviam que, o Ouvidor andava a adulterar com a mulher de um tabelião de Monsaraz e devido a isso, não cumpria a sua missão, condenando inocentes à Forca, devido a não ouvir ou investigar o que tinha de ouvir, pelo que, pediam o seu afastamento da Ouvidoria da Vila de Monsaraz!
O processo chegou às mãos do Rei D. João III, com o parecer de altos magistrados da Coroa, com indicação que o Ouvidor era recorrente e com a proposta de ser afastado da Ouvidoria da Vila de Monsaraz, mas o rei, não só o mandou afastar do cargo, como também, emitiu uma ordem de prisão, com indicação de ser julgado pelos crimes de que era acusado, sendo o Ouvidor João de Sousa encarcerado na cadeia do Castelo de Monsaraz!
A prisão do Ouvidor chegou, imediatamente aos ouvidos das gentes da Vila de Monsaraz, ficando a maioria muito contentes, porque, não sabiam quando podiam ir parar à Forca, por qualquer acusação falsa, como tinha acontecido a alguns montesarenses, mas começaram a dizer que, era uma prisão de fachada, para acalmar a população, porque, sabiam que na cadeia não lhe faltava nada, tinha tudo do melhor e, vários guardas, noite e dia a guardar a cadeia para o proteger contra inimigos que lhe juravam pela pele, por ter condenado à forca, filhos, familiares ou amigos que, estavam inocentes, ou tinham cometido pequenos crimes que, não podiam ser puníveis com a forca e ouvia-se que, lhe rezavam muitas pragas e as feiticeiras faziam mezinhas para tirar o coração ao sem coração!
O seu bem estar na cadeia, era comentado pela Vila de Monsaraz e, as ameaças contra ele, aumentavam dia a dia, ficando a sua segurança em causa, pelo que, após ser dado conhecimento ao Corregedor da Corte, foi decidido que seria transferido para a prisão da Corte em Évora!
A saída do Ouvidor da Vila de Monsaraz para Évora foi marcada, secretamente para uma noite pelas duas horas da manhã, quando a Vila estivesse a dormir e, não dessem por nada, mas nessa noite, quando o capitão da guarda o foi acordar para se preparar e partir, o Ouvidor estava morto sobre a cama!
O capitão da guarda que fazia parte da escolta, foi a correr chamar o alcaide e o físico (médico) do castelo, este para verificar se ainda havia sinais vitais, uma vez que, achava que o corpo do Ouvidor ainda estava quente e, quando o físico e o ajudante, enfermeiro, o viraram e a luz dos archotes o iluminaram, os presentes, ficaram paralisados a olhar uns para os outros, sem dizerem uma palavra, por fim, o físico exclamou: - Sem coração! Tinham arrancado o coração do Ouvidor!
Quando foi comunicado ao alcaide que, estava do lado de fora da cadeia, este não queria acreditar, depois de se inteirar da situação, começou a interrogar os guardas que estavam de serviço, separados, um a um, e contaram todos a mesma versão, a porta da cadeia estava fechada até o capitão ali chegar e, antes nunca se abriu, por isso, ninguém lá podia entrar e, acabavam exclamando que, decerto, se tinha suicidado, não havia outra explicação, mas ainda não sabiam da ausência do seu coração!
No interrogatório, o alcaide perguntou aos guardas o que tinham visto e ouvido antes da triste descoberta e todos responderam que tinham visto o Ouvidor a deitar-se na sua cama depois da ceia, mas nenhum tinha ouvido nem gritos nem gemidos, nem ai, nem ui, mas todos diziam que, tinham visto um grande gato preto com uns olhos que iluminavam a noite, nunca visto no castelo, a sair por entre as grades do portão da cadeia e que se tinha sumido na última torre do castelo a da esquerda, alguns guardas, diziam que tinham visto mais do que um gato, fazendo o mesmo percurso!
Depois das respostas dos guardas, o alcaide fez um relatório do sucedido e escreveu uma carta a pedir instruções e ajuda muito urgente, por estar perante um caso insólito, um grande mistério e, mandou dois mensageiros a Évora, onde chegaram cedo e entregaram os documentos ao Corregedor da Corte!
Tratando-se da morte de um magistrado e do tipo de crime, ainda nesse dia, à tardinha, chegou uma equipa com os melhores investigadores e físicos da Corte, ao castelo de Monsaraz, os quais, quando se inteiraram sobre o que tinha acontecido, ficaram incrédulos e quiseram começar logo a trabalhar, isolaram a área da cadeia, para não ser devassada e passaram o resto da tarde e a noite a interrogar os guardas e toda a gente com acesso ao castelo, e de manhã, começaram a analisar ao milímetro o espaço da cadeia e do castelo e, no dia seguinte, alguns passaram para o exterior a interrogar os montesarenses residentes nas imediações, sobre o que tinham ouvido ou visto de estranho, relacionado com o caso, nos dias anteriores, mas passadas quase duas semanas a investigar, estavam muito dececionados no ponto de partida, sem descobrir nada de novo, ninguém tinha visto nem ouvido nada, restava-lhe a confirmação que, quem tinha assassinado o Ouvidor tinha passado pela torre que os guardas referiam, onde estavam alguns vestígios de sangue, mas não havia sinais do coração do infeliz!
Os investigadores e os físicos escreveram nos relatórios que, a morte do Ouvidor devia ter sido concertada entre os guardas de serviço, muito bem concertada, mas não conseguiam provar, porque, tinham sido interrogados até à exaustão e todas as respostas batiam certas, o coração e o sangue tinham desaparecido e, depois de virar a Vila de Monsaraz do avesso não tinham encontrado nada, a não ser na dita torre, mas não escreveram uma palavra sobre os gatos pretos e finalizaram escrevendo que, o processo ficava em aberto, esperando desenvolvimento sobre o misterioso crime!
Quando a notícia da morte cruel do Ouvidor alastrou pela Vila de Monsaraz, toda a gente ficou chocada, não era aquele o castigo que desejavam, embora, ele tivesse condenado muitos inocentes à forca, mas o crime era muito hediondo e assustava muita gente!
Quando começaram a ouvir dizer que, os guardas do castelo tinham visto os grandes gatos pretos a sair da cadeia e que se tinham sumido na torre da esquerda, na qual tinham encontrado sangue do Ouvidor, não tiveram dúvidas que os criminosos estavam descobertos, tinha sido obra das feiticeiras, decerto, o Ouvidor tinha condenado à forca, algum filho ou outro familiar inocente e fizeram justiça pelas suas mãos, por isso, a torre do castelo de Monsaraz onde os gatos pretos se sumiram naquela noite do crime, ficou a ser conhecida pela torre das feiticeiras!
O Ouvidor foi sepultado sem coração, o qual, nunca mais foi encontrado e, ainda se encontra perdido, dentro, ou nas imediações do castelo de Monsaraz.
Fim
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Isidro Pinto






