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terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

OS COELHOS NO PALHEIRO DO TI RELA

 MEMÓRIAS DA MINHA ALDEIA “OS COELHOS NO PALHEIRO DO TI RELA”



A gente lembra-se de cada coisa.
Hoje quando fui fazer a minha caminhada matinal passei ao que agora chamamos Monte Verde, mas que, na verdade, continua a ser conhecido por todos nós como o Monte do Ti Rela.
Já em outros textos referi a minha relação de amizade e proximidade com esta família, nomeadamente com o recentemente falecido Manuel Rela, com quem além da amizade desde crianças tínhamos a afinidade da idade, já que apenas 5 dias nos separavam.
Nesses tempos a debulha dos cereais era feita por máquina debulhadoras fixas e a palha daí resultante era carregada a granel em carroças previamente apetrechadas para tal fim com uma rede própria, onde muitas vezes era precioso o trabalho dos miúdos, cuja tarefa consistia em calcar a palha dentro da rede, sendo posteriormente armazenada nas célebres serras da palha ou nos palheiros, trabalho penoso a que ainda assisti e colaborei.
A parte do monte virada a poente era destinada à habitação, na parte de trás virada a nascente eram as cabanas e o palheiro, nessa época os coelhos bravos não eram propriamente uma praga, mas existiam em grandes quantidades, às vezes quase coabitando com o pessoal que vivia nos montes.
O palheiro do Ti Rela não era mais que uma dependência de 14 ou 15 metros quadrados comunicando com o exterior por uma porta de madeira com um buraco em baixo a que se chamava gateira, que tal como o nome deixa intuir servia para os gatos poderem entrar e sair dando dessa forma caça aos ratos. Já que a gateira era mesmo à sua medida, um ou outro coelho mais afoito passou também a resguardar-se no palheiro ou, porque se reproduziram ou, porque uns foram convidando os outros, eram já muitos os coelhos que tinham como esconderijo o palheiro do Ti Rela, facto esse que não passou desapercebido ao Manel.
Ó! Pessoal um dia destes temos que ir apanhar uns coelhos para o petisco lá ao meu palheiro!!
A equipa já não me recordo bem, mas devia ser a mesma de sempre Eu, o Manel, o Armando Oliveira, o Relâmpago, o Zip e provavelmente o Chico Moca, mais que a aliciante do petisco, o que mais nos movia era a parte hilariante da questão, já que antevíamos que não devia ser nada fácil apanhar os coelhos à mão no meio da palha.
O palheiro, à semelhança de quase todos os palheiros, além da porta com postigo e gateira, não, possui qualquer outra abertura que permitisse a entrada da luz, munidos com uns ramalhos de azinho, resgatados da meda da lenha e
depois de tapada a gateira entramos todos de rompante para dentro do palheiro, aqui de pilho além te ganso, não tardou nada que fruto do pó da palha a visibilidade lá dentro fosse completamente nula, a confusão era total com
verdascadas aleatórias em todos os sentidos, recordo o saudoso Armando Oliveira que dizia, PORRA ORIENTEM-SE LÁ QUE ESTOU FARTO DE LEVAR VERDASCADAS E NÃO APANHEI NENHUM COELHO!!!
Com três ou quatro coelhos para o petisco, saímos de lá cuspindo palha e como croquetes acabados de passar por farinha.
Continuo a pensar que todos aqueles que nascemos e crescemos na ruralidade de uma pequena aldeia de província fomos, na verdade, uns privilegiados.
Texto Isidro Pinto
Para o Manuel Rela e o Armando Oliveira, os meus amigos e companheiros desta e de muitas outras aventuras, que Deus tenha as suas almas em eterno descanso.

"Texto e foto Isidro Pinto"

sábado, 28 de janeiro de 2023

O TI BOLAS E O ALMOÇO NA CHANCANA.

 O TI BOLAS E O ALMOÇO NA CHANCANA.


Os tempos eram outros, os recursos naturais na maioria das vezes eram uma forma de amenizar as dificuldades do dia a dia, a caça na altura praticada por muito poucos, era muitas vezes uma forma de pôr carne na mesa e quando o excedente existia vendia-se aos vizinhos ou trocava-se por outros bens.
Daquilo que me recordo desses tempos e apesar dos mais distintos processos de captura existia uma enorme abundancia de todas as espécies, não só de caça menor (Coelhos, Lebres, Perdizes, Rolas, Tordos, Pombos e etc.) mas também de toda a espécie de passarada, guardo na memória os enormes bandos de Calhandras e Trigueirões na altura das sementeiras, ou as Abibes na altura dos alqueives, sem esquecer os Tordos, os Melros, os Papos Amarelos e os Pardais do Mato no tempo da azeitona.
As máquinas agrícolas eram quase inexistentes e todo o trabalho agrícola desde a preparação dos solos às sementeiras, às colheitas e debulha tudo era feito com bestas e à mão.
O Ti Bolas algumas vezes assalariado nas grandes herdades outras seareiro por conta própria, andava esse ano fazendo a sementeira com a ajuda da sua parelha de machos detrás da serra dos Motrinos, na Herdade da Chancana. Era prática comum nesse tempo meia dúzia de armadilhas e era caçada certa. Vendo os enormes bandos de Calhandras, Cotovias e Trigueirões e na esperança de caçada fácil, recomendou o Ti Bolas á senhora sua esposa ó Maria!! Para amanhã não precisas de mandar nada para o almoço, manda-me só aí umas pedras de sal num talego que eu levo as armadilhas e apanho uns pássaros para o almoço.
Quis o acaso que no outro dia e apesar de ter amanhecido bonito logo ás primeiras horas da manhã levantou-se um gélido e forte vento norte que não havia pássaro que parasse por aquelas bandas, chegou-se a hora do almoço e pássaros nada, olhando o céu e á passagem de um altíssimo bando de Calhandras cheio de fome mas resignado comentava para si o Bolas, OLHA LÁ ONDE VAI O MEU ALMOÇO!!!!.



terça-feira, 10 de janeiro de 2023

MEMÓRIAS DO GUADIANA

 MEMÓRIAS DO GUADIANA





São inúmeras as vezes, que já aqui referi em anteriores textos, a relação de proximidade, que todas estas povoações ribeirinhas, tinham com o Guadiana. No caso da Freguesia de Monsaraz, essa relação era transversal a todas as aldeias, sendo no entanto mais forte, em função da menor distância, a que estas se encontravam do rio, Ferragudo Telheiro e Monsaraz, eram aquelas que sentiam que do Calvinos ao Mendonça era o seu pedaço de rio.
Muitas são as memórias desse rio e desses tempos, memórias de alegria, de tristezas e algumas de um misto de sentimentos, que ainda hoje a mente teima em não querer recordar.
Não sei ao certo quantos anos teríamos, mas há muito que a puberdade tinha ficado para trás, seriamos talvez mocetões de 18 ou 19 anos.
Os invernos eram mais chuvosos e os ribeiros alimentavam o Guadiana com um caudal bastante forte até ao início do verão. O Guadiana era vida feita de ciclos e para trás tinham ficado as grandes cheias com a fertilização das margens e a subida das bogas pelos ribeiros, fazendo de Março e Abril, os meses da desova do Barbo, que consequentemente traziam ás cascalheiras, a jusante do Gato, uma abundância enorme de peixes, qualquer método de pesca era eficaz, recordo o saudoso Joaquim Cardoso, que quando pescávamos à linha na cascalheira do Gato, sempre metia dois anzois na ponta da linha, quando caía o primeiro sempre comentava! Um já lá está agora é só esperar que caia o outro, a abundância era de tal ordem, que era normal cada anzol trazer um peixe. Era a época da Tarrafa (rede de pesca) bastava deixar anoitecer e duas ou três tarrafadas na cascalheira era cesto cheio, foi numa dessas noites de pesca, que apanhei o maior susto da minha vida, e que mantive em segredo até quase aos dias de hoje e que a mente continua a ter medo de recordar.
Os barbos andam malucos! Logo a noite devíamos ir a eles! Dizia-me o Zip (alcunha do Joaquim Inácio), a reposta era quase sempre a mesma. VAMOS! Desta vez além do Zip e Eu levámos também o ti Miguel Latoeiro (pai do Zip) tendo em consideração que o Zip era o mais novo dos irmãos à época o Ti Miguel seria homem a rondar os 60 anos, já não me recordo como fizemos o percurso até ao moinho do Gato, mas provavelmente de motorizada, chegamos ao rio e havia que transpo-lo para o lado da cascalheira, que ficava do lado de Mourão. Não me recordo de quem era o barco, se do ti Joaquim Peixeiro ou do Paulino, mas havia sempre a montante do açude junto ao moinho um barco típico do Guadiana, que independentemente de quem fosse o dono, era chegar e utilizar, dado que nessa época quem por aqui deambulava era tudo gente conhecida. Atarrafas, lanternas e cestos para o peixe tudo dentro do barco e lá vamos nós na expetativa de uma boa pescaria, tanto eu como o Zip apesar de mocetões, mas por via das circunstâncias e proximidade com o rio éramos barqueiros experimentados, todos sabíamos que o açude do Gato tinha um enorme rombo que com o caudal que se fazia sentir tudo sugava com uma força aterradora, projetando toda a sua ira nas rochas a jusante do referido buraco.
Atravessar o rio a partir do moinho do Gato, pressupunha subir perpendicularmente junto a margem, 100 ou 200 m metros e só depois atravessar. Teimosia de velhos quis o Ti Miguel esse dia levar ele o barco, a noite estava escura como breu, mesmo com as lanternas o campo de visão não ultrapassaria 15 ou 20 metros. Ti Miguel olhe que tem que subir junto a margem e só depois atravessar se não, a força do rombo arrasta-nos! Recomendava eu. Está bem! Está bem! Dizia o Ti Miguel com a convicção de que naquela idade já se sabe tudo. Não sabemos ao certo se não subiu o suficiente, ou por deficiente forma de remar, foi o barco perigosamente e sem que nos déssemos conta, aproximando do rombo do açude, persentindo que algo não estava bem e, porque já era audível o assustador sussurro das águas, acendemos as lanternas e assolou-nos um tremendo calafrio, estávamos a escassos metros de uma morte certa, de onde o Ti Miguel já não nos conseguia tirar, de um gesto vigoroso e enérgico, próprio de quem sabe que está a 5 ou 6 segundos de uma enorme tragédia, o Zip derrubou literalmente o Ti Miguel do banco do remador e com o vigor próprio da juventude, lutou desesperadamente durante algum tempo, para tirar o barco daquela situação, a força exercida pelos remos, era igual à força da corrente e o barco mantinha-se estático, como flutuando entre a vida e a morte, vieram há memoria os pais, as namoradas e toda uma vida que ficava por viver, quiz Deus ou alguma força divina, que após estes angustiantes minutos o barco saísse daquela situação.
Não sei se o Zip já contou a alguém, mas subconscientemente, fizemos um pacto de silêncio, que só hoje, passados mais de 50 anos conseguimos falar do assunto. Mesmo assim, tenho SAUDADES DO GUADIANA.

terça-feira, 13 de setembro de 2022

A LENDA DO MILAGRE DO SENHOR DOS PASSOS E DA PROCISSÃO DA BURRINHA EM MONSARAZ

 Monsaraz A Caminhar

História, lendas e tradições da Vila de Monsaraz

A lenda do Milagre do Senhor dos Passos e da procissão da burrinha em Monsaraz




A veneração dos montesarenses e vizinhos a Nosso Senhor Jesus dos Passos era desmedida, ao qual acorriam nas aflições a suplicar auxílio, a pedir graças, e recebiam sempre os benefícios, por isso, era imensa a sua devoção.
Nos finais do mês de Abril de 1680, como habitualmente, um grupo de rapazes brincavam aos guerreiros, junto às muralhas da Vila de Monsaraz, no lugar onde existia uma escadaria que dava acesso ao topo e que eles subiam e desciam a correr, para vigiar o inimigo e preparavam-se, para defender, heroicamente a sua Vila, contra os castelhanos, resultado das conversas que ouviam no dia à dia aos mais velhos, que tinham vivido a guerra da restauração, uns anos antes.
Os rapazes brincavam naquele lugar, quase todos os dias, e por vezes caiam, mas ficavam com alguns arranhões nos joelhos que quase todos exibiam, porém, naquele dia a queda do Manelito Caeiro foi fatal, mesmo não sendo do cimo da escadaria, acabou por cair desamparado e ficou estatelado no chão, sem tugir nem mugir.
Os outros rapazes ainda o incentivaram a levantar-se, mas ele não se mexia e eles começaram a gritar por socorro, aproximaram-se logo alguns montesarenses e confirmaram que ele estava muito mal, porque tinha cara de morto, então foram a correr chamar o médico que, perante tanta aflição, correu o mais que pôde e em poucos minutos confirmou que o Manelito estava morto, adiantando que tinha a espinha e as costelas partidas, não havia dúvidas, estava morto.
A mãe do Manelito, a ti Maria Caeira, chegou a tempo de ouvir as últimas palavras do Médico e, imediatamente, começou a chorar alto e a dizer que o seu filho não podia estar morto e chegou-se junto dele para o ver, mas ele não respirava e o médico disse-lhe para o levarem para casa e podiam preparar o velório, que ele ia passar o papel para o padre fazer o funeral no dia seguinte.
As tias, vizinhas e outros montesarenses, levaram o Manelito para casa, com muito cuidado, uma vez que, conforme o médico disse, estava todo partido e começaram a prepará-lo para lhe vestirem um manto branco de anjinho para levar na sua última viagem, entretanto foram chamar o pai, o ti António Pereira ao Roncão do Conde, hoje Roncanito, onde trabalhava, para vir assistir ao velório e ao funeral do filho.
Desde o momento que a ti Maria Caeira chegou junto do Manelito, nunca aceitou que ele estava morto e começou a rezar e a implorar a Nosso Senhor Jesus dos Passos para não o deixar morrer e repetia, repetia as preces, e quando estava já em desespero eis que o Manelito deu um gemido de dor muito profundo, a mãe deu um salto e a sua esperança renasceu, mas as tias e vizinhas comentaram baixinho: - Coitadinho, só agora deu o último suspiro.
A Ti Maria Caeira, ficou ainda com mais fé e, continuou a pedir ao Senhor dos Passos para deixar viver o seu filho, fazendo algumas promessas e, logo a seguir ouviu-se outro suspiro e mais outro e o Manelito começou a respirar!
Quando o pai do Manelito entrou em casa, já o milagre de Nosso Senhor dos Passos, se tinha realizado, ele já respirava e dizia algumas palavras, queria saber o que lhe tinha acontecido para estar naquele estado, porque não se conseguia mexer.
O médico foi ver com o seus olhos o que lhe contaram, porque não acreditava, e disse: - Isto foi um grande Milagre, tenho a certeza que ele estava morto, mas já que voltou vamos tratá-lo, e receitou-lhe algumas mezinhas que, começou logo a tomar. A ti Maria Caeira, apenas repetiu: Foi um grande Milagre, se foi, só eu sei.
O Manelito passou o verão imobilizado na cama, por fim ficou melhor, mas continuava sem conseguir dar um passo e o médico dizia que não podia fazer mais nada, e que ele nunca mais conseguia andar, porque tinha partido a espinha.
A sua mãe não se conformava e continuou a pedir a Nosso Senhor Jesus dos Passos para lhe dar o andar, suplicou muito e prometeu que se o Manelito voltasse a andar, ela e o filho iam acompanhar as procissões do Senhor dos Passos até ao fim das suas vidas, nem que fossem montados numa burrinha. Na manhã seguinte, o Manelito ao acordar já mexia os dedos dos pés e partir daí começou a melhorar e, no final de Outubro já dava pequenos passinhos com a ajuda de muletas, e um ano depois, com muito treino, deixou de usar as muletas e quase não tinha mazelas.
Mais tarde, o Manelito, que ficou com este nome para o diferenciar do nome do avô materno, o ti Manuel Caeiro, aprendeu a profissão de carpinteiro com o seu padrinho, assim, não necessitava de fazer muito esforço para andar, apesar de andar bem, fez a sua vida normal, organizou a sua família e, sempre na companhia de sua mãe, lá estavam presentes nas procissões, junto à imagem de Nosso Senhor Jesus dos Passos.
Os anos foram passando e, naturalmente a ti Maria Caeira, foi ficando idosa e trôpega, até que quase deixou de andar e nesse ano na véspera das Festas do Senhor dos Passos passou três noites sem dormir a pensar como ia pagar a sua promessa, uma vez que não conseguia caminhar mesmo amparada pelos filhos, até que se lembrou das palavras que tinha proferido na promessa: - "Que ela e o Manelito acompanhavam as procissões até ao fim das suas vidas, nem que fossem montados numa burrinha", ora ali estava a solução, só faltava a autorização do Prior para permitir a burrinha na procissão.
Logo de manhãzinha, chamou os filhos que estavam por perto e disse-lhe que tinha encontrado a maneira de cumprir a promessa, e contou-lhe como ia ser, por isso, tinham de ir pedir ao Prior para ele deixar participar a burrinha na procissão.
Os filhos da ti Maria Caeira ficaram surpreendidos e com muitas dúvidas na obtenção da autorização do Prior, mas a mãe explicou-lhe como deviam fazer o pedido, e dizer-lhe que a burrinha fazia parte da promessa, e não ia envergonhar ninguém, porque seria bem limpa e enfeitada com fitinhas, sendo um cenário semelhante ao da Virgem Maria montada na burrinha e conduzida por São José que, neste caso, seria o filho Manelito a levá-la pela arreata, e por coincidência também era carpinteiro.
Os filhos da ti Maria Caeira, quando ouviram a mãe, imaginaram o dito cenário e mudaram de ideia, e foram, imediatamente falar com o Prior, explicaram-lhe ao pormenor o pedido de sua mãe, mas ele não achou graça e disse-lhe que não, porque sabia que ia haver muita chacota, e exclamou: - Onde se viu uma burra numa procissão?
Os filhos da ti Maria Caeira, não desistiram à primeira, e prontificaram-se a falar com os montesarenses, que decerto iam compreender, porque era uma necessidade já que não tinham outra forma de levar a mãe para cumprir a sua promessa, mas não conseguiam demover o Prior que, continuava a dizer, não e não, mas antes de acabar de dizer não, ouviu-se um trovão tão forte que a Vila de Monsaraz estremeceu de lés a lés, e o Prior ficou tão assustado que antes de acabar de dizer não, já estava a dizer sim, sim, pensando bem, fica tudo como disseram! Quando saíram da Igreja, o céu estava completamente limpo, sem sinais de trovoada, e ficaram com a certeza que tiveram a ajuda do Senhor dos Passos.
A burrinha foi treinada para não se assustar com a presença de tanta gente, e no dia da procissão lá estava enfeitada, com a ti Maria Caeira sentada na albarda, com as duas pernas para o mesmo lado, vestindo um lindo manto, feito e bordado por ela, e o filho Manelito, parecia São José com a arreata entre mãos e, assim, cumpriram a sua promessa, fazendo o percurso da procissão.
Na Vila de Monsaraz já toda a gente sabia da presença da burrinha na procissão, mas não sabiam que ia ter tanto êxito, não só pela fé que irradiava da ti Maria Caeira e do Manelito, mas também da burrinha que parecia entender a sua missão naquele lugar, esse cenário conquistou o coração de toda a gente e não se falava noutra coisa, os montesarenses diziam que, nunca tinham visto um quadro religioso tão lindo, ao vivo, e já ansiavam a sua repetição no ano seguinte!
Este cenário repetiu-se cinco ou seis anos, e era falado e admirado não só na Vila, mas em toda a região, em cada ano acorriam mais romeiros a Monsaraz, também, atraídos pela procissão da burrinha de Nosso Senhor Jesus dos Passos, como lhe chamavam, depois, a ti Maria Caeira foi prestar contas a Deus e acabou a sua presença e da burrinha, nas procissões do Senhor dos Passos em Monsaraz.
Fim
Texto: Manuel Correia
Fotografia: Isidro Pinto

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

A LENDA DO MILAGRE DO SENHOR DOS PASSOS, QUANDO ESCONDEU MONSARAZ

A lenda do Milagre do Senhor dos Passos, quando escondeu Monsaraz 




História, lendas e tradições da Vila de Monsaraz

A lenda do Milagre do Senhor dos Passos, quando escondeu Monsaraz

Nosso Senhor Jesus dos Passos é um título de Jesus Cristo, é uma devoção na Igreja Católica dirigida a Jesus, relembrando o trajeto percorrido na Via Dolorosa até chegar ao calvário!
A sua imagem surgiu na Villa de Monsaraz, na então Igreja do Espírito Santo, depois da Misericórdia, por doação do Duque de Bragança D. Teodósio II, talvez, cerca do ano de 1600 e, a devoção dos montesarenses pelo Senhor dos Passos, foi imediata!
Nos finais da centúria de 1600, a fama dos Milagres de Nosso Senhor Jesus dos Passos, já tinha passado a fronteira e chegado às terras da Raia em Castela, de onde chegavam cada vez mais romeiros a Monsaraz!
A devoção pelo Senhor Jesus dos Passos, em terras de Castela era tanta que, um grupo de romeiros de Figueira de Vargas, Vale de Mata Mouros, Vila Nueva del Fresno e outras localidades, engendraram um plano para roubar o Senhor e erigir-lhe uma Igreja em Figueira de Vargas, porque era muito doloroso fazer o caminho, passar o rio Guadiana e depois subir o planalto até Monsaraz!
O plano dos castelhanos foi fácil de acertar, consistia em fazer uma peregrinação a Monsaraz, composta por um grande número de romeiros, homens, mulheres e crianças já crescidas, integrado nesse grupo, seguia outro de danças e cantares com bandeiras, Pendões e estandartes que representavam as suas Vilas, depois à porta da Igreja da Misericórdia armavam um grande espetáculo e distraiam os montesarenses, entretanto, outro grupo bem treinado, envolvia o Senhor dos Passos nos Pendões e seguiam a caminho de Castela, mas no exterior da Vila entregavam o Senhor a um grupo de cavaleiros que rapidamente passaria a fronteira e, se necessário, alguns davam cobertura na retirada, embora o resultado das simulações indicavam que, quando os montesarenses dessem pela falta do Senhor, já o mesmo estaria bem escondido em Figueira de Vargas!
Os castelhanos treinaram bem, conforme o plano, foram várias vezes a Monsaraz a ensaiar e tinham a certeza que tudo ia correr bem, logo, estava garantido que tudo daria certo, assim, marcaram a sexta feira dia 5 de Agosto de 1695, um dia de semana, depois da Missa da manhã, quando os montesarenses saíssem a trabalhar nas herdades e os funcionários já estivessem nas respetivas Repartições e na Câmara, seria mais fácil, porque havia poucas pessoas por ali!
Os castelhanos começaram a juntar-se às portas de Vila Nueva del Fresno na noite de quinta feira, onde foram dadas as últimas indicações, para de madrugada estarem junto ao rio Guadiana no Lugar do Gato, onde já tinham alguns barcos para os passar para a margem portuguesa, mas a cavalaria e outras montadas passavam a nado!
Quando os castelhanos se aproximaram do rio Guadiana, não conseguiam ver um palmo à frente do nariz, ficaram espantados, porque nunca tinham assistido a um nevoeiro tão cerrado no mês de Agosto, mas pensaram que, seria passageiro e, rapidamente o dia ficaria limpo, mas quando os romeiros embarcaram era tão grande a escuridão que os barcos iam contra as rochas e alguns partiam-se e só não houve naufrágios porque o rio Guadiana naquele lugar dava pé em quase todo o lado!
Perante aquele desastre, os romeiros aflitos gritavam assustados, ouviam-se em Monsaraz e por todo o Vale das Ribeiras da Pega e do Azevel, por fim, quando conseguiram juntar o grupo, através de gritos pelos outeiros, uma vez que não viam nada, partiram sem orientação, porque não faziam ideia para que lado ficava a Vila de Monsaraz, que estava coberta pelo manto negro de nevoeiro que não deixava nenhuma pista aos castelhanos que passaram ao lado, sendo barrados na serra da Barrada, onde um grupo de cavaleiros do Regimento da Casa de Bragança os esperava e, depois de os cercarem, fizeram-nos ajoelhar e obrigaram-nos a contar o motivo daquela incursão, e os castelhanos contaram ao pormenor como tinham planeado roubar o Senhor dos Passos de Monsaraz, mas estavam muito arrependidos, e adiantaram que andavam perdidos devido ao nevoeiro cerrado!
O capitão de cavalos, ao ouvir a mesma versão a vários romeiros, não teve dúvidas que falavam verdade e, perante a presença de mulheres e crianças, mandou aplicar pequenos castigos, para não facilitar e a situação voltar a acontecer, então tiraram-lhe os cavalos e as melhores botas e calças aos homens, que seguiram descalços e em ceroulas para as suas Vilas!
Os militares portugueses levaram os castelhanos de volta ao Porto do Gato, onde chegaram muito exaustos, alguns já de gatas, entretanto, alguns guardas da Praça de Monsaraz e muitos montesarenses que tinham ouvido tanto barulho, desceram ao seu encontro, mas não lhe fizeram mal, antes pelo contrário, como conheciam alguns romeiros, até os ajudaram a passar o rio Guadiana para Castela!
Quando já estava tudo calmo, e os castelhanos a caminhar para as suas Vilas, repentinamente, desapareceu o manto de nevoeiro e ficou um lindo dia de sol, vendo-se a Vila de Monsaraz a brilhar nas alturas e, Nosso Senhor Jesus dos Passos lá ficou no seu lugar!
Depois da notícia deste acontecimento percorrer a Vila de lés a lés e toda a região, os montesarenses não tiveram dúvidas que tinha sido um Milagre de Nosso Senhor Jesus dos Passos, que escondeu a Vila de Monsaraz para não ser roubado pelos castelhanos e, ainda nesse dia, fizeram uma procissão que percorreu as ruas da Vila em sua veneração.
Fim
Texto: Manuel Correia
Fotografia: Isidro Pinto

quinta-feira, 5 de maio de 2022

A LENDA DA MOURA ENCANTADA E DO AJUDA DE GADO DE MONSARAZ

 A lenda da moura encantada e do ajuda de gado de Monsaraz




Numa noite de São João, nos tempos de outrora, quando o Manuel Sarugas seguia em passo largo para se preparar para o baile, antes de entrar na Vila de Monsaraz, ouviu chamar pelos seu nome e pensou que era alguma vizinha ou familiar que também se dirigia para sua casa, mas assim que virou a cabeça, ficou abismado e exclamou: - Meu Deus, que mulher tão linda!
A mulher misteriosa que o chamava, estava em pé em cima de uma rocha a sorrir e envolvida por um suave e brilhante nevoeiro dourado e pediu-lhe para se aproximar, depois disse-lhe que se chamava Zaya e que era princesa moura, do Reino de Badajoz que, como outras mouras, esteve refugiada na Vila de Monsaraz, o último bastião do seu Reino, a cair nas mãos dos cristãos e contou-lhe que tinha sido encantada pelo seu pai naquele lugar para não se tornar escrava dos cristãos, por isso, pediu-lhe para a desencantar, porque ele tinha no bornal o que era necessário para o fazer e em troca recebia o tesouro que estava associado ao encantamento e ficava muito rico.
O Manuel Sarugas olhava para ela de boca aberta, por fim, disse-lhe que não acreditava em encantamentos de mouras, mas fosse como fosse, estava disposto a fazer tudo por ela, era só dizer-lhe o que tinha de fazer.
A princesa moura disse-lhe que, teria de lhe dar o pão que levava no bornal, mas antes, colocava-o em cima da rocha, à qual daria três voltas dizendo as palavras mágicas: “Zaya estás livre, leva este pão e vai para a moirama” e, em cada volta à rocha dava um beijo no pão, depois recebia o tesouro e seguia o seu caminho, mas sem olhar para trás, sem olhar para trás, senão o desencantamento ficava sem efeito, e por consequência ele ficava sem o tesouro e o encantamento seria dobrado, estas palavras foram repetidas duas vezes.
O Manuel Sarugas fez tudo o que a princesa lhe indicou e no final recebeu o tesouro, meteu-o no bornal e seguiu o caminho para casa, mas ficou de cabeça perdida por ela e lembrou-se que devia tê-la convidado para ir com ele ao baile, ou podia ter exigido, afinal era um rapaz rico e começou a imaginar que dançava com ela no baile de Monsaraz, tanto dançou até que fez um rodopio que o obrigou a olhar para trás.
Quando entrou em casa ia eufórico, gritando que estavam ricos, os pais e os irmãos olharam uns para os outros e pensaram que ele estava parvinho, mas ele exibiu o bornal e pediu que o alumiassem com a candeia, dizendo que, estava cheio de moedas de ouro, mas todos confirmaram que não era verdade, estava cheio, mas de pedacinhos de ferro.
O Manuel Sarugas tinha visto o seu bornal cheio de moedas de ouro, por isso, não acreditava no que estava a ver, então lembrou-se das palavras da princesa, “não podia olhar para trás” e ele ao fazer aquele rodopio na dança, tinha olhado para trás e passado os olhos pela rocha, tentando vislumbrar a princesa, por isso, estava visto que o desencantamento tinha ficado sem efeito e o ouro do tesouro tinha-se transformado em ferro.
O Manual Sarugas ficou revoltado e já não foi ao baile, correu à rocha da princesa a tentar emendar o seu erro, chamou, chamou, disse as palavras mágicas muitas vezes e andou em redor da rocha até se cansar, mas nada aconteceu, então, zangado, atirou os pedacinhos de ferro pela ladeira de Monsaraz, chegando alguns à Aldeia do Telheiro e, ainda hoje, por ali se encontram alguns pedacinhos ferrosos.
O Manuel Sarugas, voltou para o curral do gado e nunca mais ficou bom da cabeça, em todas as conversas envolvia a princesa moura, como se estivesse presente e passou as noites de São João do resto da sua vida a andar em redor da dita rocha, dizendo as palavras mágicas e a dar beijos num pão.
Quanto à princesa Zaya, parece que, continua encantada nessa rocha, debutando misticismo à entrada da Vila de Monsaraz.
Fim
Texto: Manuel Correia
Fotografia: Isidro Pinto

domingo, 20 de março de 2022

A LENDA DO ABASTECIMENTO DE ÁGUA A MONSARAZ

 

Fonte do Telheiro
Fonte do Telheiro


A LENDA DO ABASTECIMENTO DE ÁGUA AO POVO  QUE MORAVA NO CÉU, EM MONSARAZ


Num Domingo do mês de Outubro de outros tempos, durante o almoço, o avô disse ao neto que, a seguir iam dar um passeio, para ele ver uma obra de alvenaria no Monte Novo do Seixo, perto de Montes Juntos, o neto vibrou de alegria porque, como sempre, seria mais uma aventura em companhia do avô!

Feitos os preparativos, saíram para sul em direção a Montes Juntos, estava um dia ameno, mas no céu havia nuvens soltas, formando grandes castelos, mas sem ameaças de chuva! 

O neto, não cabia em si de contente e, falava, falava, fazendo comentários sobre tudo, o que viam pelo caminho, pedindo sempre a aprovação do avô, ficando muito vaidoso por já perceber dos assuntos dos homens! 

Quando entraram na herdade do Terraço, avistaram a Vila de Monsaraz, e o neto não se conteve e começou a gritar, muito entusiasmado: 

Neto: Avô, avô, olhe, olhe, lá está a tal terra no céu! 

Avô: Qual Terra no céu? Ah! É Monsaraz! Então, no dia que fomos à lenha não te disse que além era Monsaraz?

Neto: Pois disse, avô, mas já viu que hoje não está no mesmo sítio do outro dia! Hoje até está do céu para cima! 

Avô: Na verdade, até parece que tens razão, mas não tens, porque é ilusão, aqui da nossa posição parece-nos que está acima das nuvens, mas não está no céu! 

Neto: Olhe que não sei avô, não sei, eu acho que está! Então se as nuvens estão no céu, aquela Terra ainda está mais para cima das nuvens, não pode estar noutro lado, senão no céu, ou para cima dele! 

Avô: Já te disse que não passa de ilusão, mas que a Vila de Monsaraz está lá muito alta, isso está! 

Neto: Então, o avô já lá foi?

Avô: Já, já, conheço muito bem a Vila de Monsaraz, é muito bonita! 

Neto: Então e como é que o avô subiu lá para o céu? Por algumas escadas?

Avô: Oh neto, toma lá tato, a Vila de Monsaraz fica num outeiro muito alto, mas não é no céu, daqui é que parece que está pregada ao céu, mas não está! Quando lá fui, subi por uma ladeira que os homens fizeram para subir e descer a buscar as coisas que lá precisam!

Neto: Avô, têm vir buscar tudo cá abaixo, porque não têm nada lá em cima?

Avô: Têm lá muita coisa, mas vai quase tudo cá de baixo! 

Neto: Levam quase tudo para cima, menos água, não é avô? Ela vem lá de cima, devem ter lá muita água! N 

Avô: Não, neto, pelo contrário, esse é um dos maiores problemas da Vila de Monsaraz, porque a água que bebermos, nasce na terra, como lá em cima é tudo rochas, assim, o povo de Monsaraz, também tem de descer e subir, com a água às costas ou carregada por cavalos, bestas e burros, embora lá fique alguma da chuva em cisternas, mas não chega para todos! 

Neto: Eh avô, coitados, deviam passar lá muita sede! 

Avô: Não, neto, não passavam sede, porque tinham muitas maneiras de fazer o abastecimento de água, não era fácil, mas tinham água! O avô já te conta como era feito o abastecimento de água à Vila de Monsaraz noutros tempos! 

Sabes que, os primeiros povoadores que foram para lá morar, ainda antes dos Mouros, fizeram logo uma cisterna para guardar a água da chuva e essa água durava para muitos meses, mas nesse tempo, as pessoas desciam as encostas do Monte todos os dias, a trabalhar nas terras e a guardar o gado e, quando voltavam a casa levavam cá de baixo, das Fontes, a água que precisavam para beber!  

Depois, de ser dos portugueses a  Vila de Monsaraz começou a crescer e o Rei D. Dinis mandou acrescentar e reforçar o Castelo e nessa altura fizeram uma cisterna e um poço lá dentro, para abastecer de água quem lá morava, assim como a guarnição militar e para terem água em caso de cerco pelo inimigo! 

Com o passar do tempo a população foi aumentando, tinha cada vez mais pessoas, logo, era preciso mais água, porque sem água ninguém vive, então, o governador mandou abrir um poço muito fundo, chamado poço D' El-Rei que, forneceu água aos moradores de Monsaraz durante muitos séculos, porém,  deixou de ser suficiente e tiveram de encontrar outras maneiras de ter mais água e, na centúria de 1500, a Câmara mandou construir uma grande cisterna na praça da Vila, à qual chamaram cisterna da Vila com grande capacidade, era o reservatório de água mais importante da Vila e recolhia as águas das chuvas que caiam nos telhados de quase todas as casas da rua principal, chamada Rua Direita e, um sistema de caneiras faziam entrar a água nessa cisterna. pelo que,  quando chovia ficavam com muita água para todos, mas em anos secos, quando chovia pouco, havia falta de água e tinham de a carregar lá para cima!

No início dos anos de 1800, a cisterna da Vila estava muito danificada, descuidaram-se em a arranjar e começou a faltar a água, então a Câmara mandou abrir um poço na praça da Vila, com sete a dez metros de fundo, porque, pensavam que resolviam o problema, mas esse poço dava pouca água e sem qualidade, acabando por desaparecer e convenceram-se que, o melhor reservatório de água era a cisterna da Vila e foi arranjada!

Ainda havia outra cisterna em Monsaraz, mas era privada e estava no interior da casa do Juiz de Fora, o homem mais rico da Vila, à qual, os moradores não podiam chegar! 

O abastecimento de água à Vila de Monsaraz, ao longo dos tempos, foi feito por três cisternas, contando com a da praça do castelo e a particular e por três poços, o poço D' El-Rei, o poço da praça da Vila e o poço da guarnição também dentro do castelo, mas desde sempre, os montessarenses, recorreram às Fontes de boas águas em vários lugares nos arredores da Vila, sendo mais conhecidas, a Fonte do Telheiro, a Fonte dos Poços Novos e a Fonte da Colaça, sendo o transporte da água a partir dessas Fontes feito em cântaros de barro às costa dos moradores, ou em cavalos, mulas e, principalmente pelos aguadeiros, os homens que vendiam a água às portas das casas na Vila, andavam todo o dia, desde madrugada, descendo e subindo as ladeiras, chegando quase ao esgotamento e muitas vezes o cansaço era tanto que para subirem, tinham de agarrar a cauda dos burros para os ajudarem a subir, mas nunca negavam água aos montessarenses!

Sabes que, nenhuma Fonte forneceu tanta água e de boa qualidade, à Vila de Monsaraz, como a Fonte do Telheiro, a qual, mesmo nos anos muito secos, quando secavam todas as Fontes na região, esta, deu sempre água em abundância! 

Neto: Então, assim as pessoas que moravam lá no céu, não passavam sede? 

Avô: Nâo, neto, de uma maneira ou outra, tinham sempre água, quando chovia todas as vasilhas serviam para apanhar a água dos beirais, até os tachos e as panelas, porque a água da chuva é muito boa para beber e para cozinhar, não há melhor água para cozer os grãos e o feijão e, além disso, como te disse, a dita Fonte do Telheiro nunca deixou de lhes dar água em abundãncia! 

Neto: Eh, avô, eu gostava muito de ver essa Fonte e aquela Terra no céu! 

Avô: Fica descansado neto, um dia vais conhecer isso tudo.

Assim, durante a viagem, o avô contou ao neto, à sua maneira, o que sabia sobre o abastecimento de água, durante séculos, aos moradores da Vila de Monsaraz.

Fim 


Texto: Manuel Correia Manuel Fotografia: Isidro Pinto

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

A ORIGEM DAS CALÇADAS DE MONSARAZ

 IMPORTANTE E BONITO TEXTO DO NOSSO AMIGO Francisco Capelas SOBRE  A ORIGEM DAS CALÇADAS DE MONSARAZ



 Monsaraz

As antigas calçadas das ruas da vila e dos seus acessos.

Sabe-se que , ao lado da posse de altos cargos administrativos e de títulos nobiliárquicos os nobres portugueses continuaram no século XV a receber diversos privilégios fiscais .

Em tempos de D. João I, Monsaraz e o seu termo foi integrado na sereníssima Casa de Bragança, por doação de D. Nuno Alvares Pereira em 1422, ao seu neto D. Fernando passando em matéria de tributação fiscal, a constituir um dos mais preciosos e fartos vínculos desta grande casa ducal portuguesa.

Desde os tempos de D. João I , era uma terra imune, por ser couto de homiziados, destinado a atrair moradores e a tentar a sua expansão demográfica a custa de criminosos foragidos à justiça e recrutados na escória Humana do Pais, caracterizada pelo não pagamento de impostos à coroa, onde a entrada de funcionários régios era proibida, e onde todas a funções administrativas dependiam da sereníssima Casa de Bragança, que nomeava o juiz ou ouvidor para fazer justiça, o cobrador de impostos, vigários e meirinhos, e onde também mantinha as suas próprias tropas.

Na história de Monsaraz, encontramos períodos de graves e perigosas crises de despovoamento derivado ao fato da vila ser «fragosa e de má serventia» situação ,aliás, que originava um fenómeno periódico e repetido, com carater fatalista , dadas as frequentes crises demográficas.

A sua importância estratégica como povoação fortificada próxima da fronteira com Castela, recomendava o seu forte povoamento, e para isso havia que criar condições que levasse a fixação dos seus moradores.

Por isso D. Afonso V nas cortes de 16 Dezembro de 1439,terá atendido de imediato aos apelos formulados pelo procurador do concelho, concedendo a Monsaraz todos os privilégios.(1)

O grande investigador da história regional Dr. José Pires Gonçalves escreveu a propósito o seguinte:

«E tão grave se manifestou esta crise demográfica que , nas cortes celebradas em tempos de D. Afonso V, o procurador do concelho de Monsaraz, Diogo Lourenço, apelou ao rei e solicita para os moradores da vila e do seu termo, como medida repovoadora, a isenção dos tributos a que se encontravam obrigados, alegando ainda, à concessão com clarividência politica, que essa isenção devia ser extensiva «aos judeus e mouros que ali fossem morar»

O rei com exata noção da realidade local, não só atendeu as reclamações formuladas por Diogo Lourenço em matéria administrativa e fiscal, como também, para facilitar o acesso dos moradores da vila, mandar pavimentar as congochas que pelos flancos do outeiro ascendem ás portas da muralha e alarga a sua generosidade até à conceção do grande previlégio urbanístico do calcetamento das ruas no interior da povoação.

Este calcetamento foi executado com material lítico pobre do Xisto regional e para maior segurança ambulatória das cavalgaduras e dos próprios homens, movendo-se nas ruelas de acentuado desnível, a técnica aplicada foi o da calçada em cutelo, com os toscos blocos de lage implantados de gume no leito da pavimentação, como ainda hoje ali de pode observar nos troços mais antigos do empedramento»(2)

Estes grandes obras de beneficiação da vila e dos seus acessos, terão decerto necessitado de muita mão de obra escrava, naquele tempo abundante no termo de Monsaraz.

Não conheço nenhum documento que me permita afirmar como verdade histórica, de onde foram extraídas as pedras de xisto necessárias para estes pavimentos, mas,… é na toponomia do tablado físico do antigo concelho de Monsaraz que ainda hoje existe o topónimo” Serra das Pedras”. Não me custa acreditar que terão sido dos afloramentos de xisto existentes naquela serra (próxima de Monsaraz), que terão sido extraidas as pedras para os penosos trabalhos de calcetamento das ruas e acessos á vila medieval de Monsaraz.

Texto: FRANCISCO CAPELAS

Fotos: Porta d´Évora -José Rosado de Carvalho

E Monsaraz A Caminhar 

Referências:

(1)-A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, Livro 19, fól. 70

(2)-Monraraz- Vida morte e ressureição de uma vila alentejana-Joé Pires Gonçalves




quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

A lenda do Milagre do Senhor Jesus dos Passos no Terramoto de 1755

 

História, lendas e tradições da Vila de Monsaraz 

A lenda do Milagre do Senhor Jesus dos Passos no Terramoto de 1755 

Na madrugada do dia 01 de Novembro de 1755, a aurora não apresentava nenhum sinal diferente das anteriores, anunciava mais um lindo dia de sol brilhante e, mesmo sendo o dia de Todos os Santos, a vida do campo não podia parar, embora, as sementeiras estivessem feitas, o trabalho nunca acabava, assim, após assistirem à primeira missa da manhã, os moradores da Vila de Monsaraz, trabalhadores rurais, dirigiram-se aos respetivos Montes e herdades, mas os funcionários do Reino e da Sereníssima Casa de Bragança, a donatária da Vila, sendo feriado, estavam aliviados das suas funções e, com as suas famílias, foram assistir à Missa das nove horas na Igreja de Santa Maria da Lagoa! 

Cerca das nove horas e trinta e cinco minutos, da manhã, a Vila de Monsaraz estremeceu com tão grande intensidade que, as suas muralhas, muito degradadas desmoronaram, imediatamente, assim como  parte do Castelo, porém, os edifícios e as Igrejas do interior da Vila, pouco sofreram, apenas ficaram algumas rachas e cairam uns pedaços de paredes velhas e de rebocos, sem fazer nenhuma vítimas! 

Naquela manhã, a Igreja de Nossa Senhora da Lagoa estava cheia de fiéis, a assistir à Missa de Nossa Senhora do Rosário que, era cantada com orgão e assistida por oito sacerdotes e, no momento em que a Igreja sofreu o grande impacto do terramoto, caiu muito pó e rebocos e, algumas Imagens foram afastadas dos lugares nos seus altares, os fiéis entraram em pânico, mas não houve nenhum perigo para as pessoas que se achavam na Igreja, apenas ficaram muito empoeiradas, sendo a sua proteção atribuída a Nossa Senhora do Rosário, a qual todos os fiéis durante o terramoto, com vozes e lágrimas invocaram! 

Passados poucos minutos, ficou um medonho silêncio, sem ninguém se mover do lugar onde se encontrava, com receio que o seu movimento desencadeasse a queda das paredes e, começaram a ouvir-se gritos de aflição no exterior, porque, as pessoas não viam sair ninguém e pensaram  que, a abóboda da Igreja de Santa Maria da Lagoa tinha desabado e estavam lá todos sepultados!

Assim que, o povo e as autoridades se certificaram da ausência de réplicas do terramoto, ainda desorganizados, começaram a correr pelas ruas, pelos campos, por todo o lado, à procura dos seus amigos e familiares, dando lugar a grande confusão! 

O tempo foi passando e antes do meio dia, já havia grupos organizados para prestar ajuda, começaram por visitar as casas e os seus moradores, avaliando o nível de destruição e se era necessário dar alguma ajuda, foram entrando nos edifícios e nas Igrejas da Vila e, quando um grupo entrou na Igreja da Misericórdia deparou-se com um cenário que os deixou abismados, não mexeram em nada e, algumas pessoas saíram a correr a chamar as autoridades, os guardas, militares e padres e com eles veio muita gente atraída pelo alarido! 

Na Igreja da Misericórdia, Nossa Senhora da Piedade com sua criança, tinha o seu lugar no segundo Altar colateral da parte da Epístola e, durante o terramoto caiu no meio da Igreja em frente de Nosso Senhor Jesus dos Passos, ficando a seus pés, em posição de suplício, por isso, foi logo assumido pelos devotos que Nossa Senhora movida da sua piedade se prostrou por terra a suplicar a seu Bendito Filho, para salvar a Vila de Monsaraz e seu Termo, (Concelho) da destruição, e de verdade, não houve ruína de relevo nos edifícios da Vila e, as gentes não sofreram o menor dano físico! 

A notícia de que o Senhor Jesus dos Passos tinha feito um Milagre ao salvar a Vila de Monsaraz e seu Termo da destruição, depressa se espalhou e, em poucas horas o povo juntou-se na Igreja da Misericórdia, onde decidiram continuar a juntar-se durante nove dias seguidos a fazer Preces e no fim fizeram uma procissão e Missa cantada para lhe dar as graças! 

Os montesarenses reconheceram o grande benefício, sem dúvida, que foi um Milagre, por isso, continuaram a dar as graças a Nosso Senhor Jesus dos Passos, tornando-se excessiva a sua devoção para com a sua soberana Imagem, havendo devotos que a visitavam todos os dias, mas o dia da visita comum, estava assente que seria às Sextas - Feiras! 

Os montesarenses são muito devotos de Nosso Senhor Jesus dos Passos, continuando a venerá-lo, de entre outras formas de fé, através da realização da Festa em sua honra no segundo fim de semana do mês de Setembro. 


Fim

Texto: Manuel Correia 

Fotografia: Isidro Pinto 


Nossa Senhora da Piedade - Monsaraz 


domingo, 30 de janeiro de 2022

O TI GARRANA A VENDA DO BENTO E A TROVOADA

 O TI GARRANA A VENDA DO BENTO E A TROVOADA


Já aqui referi em alguns textos, que o Telheiro provavelmente devido á sua privilegiada localização geográfica, desempenhou importante papel socioeconómico durante várias décadas, nomeadamente, nas de 50/60/70 proporcionando como tal uma enorme oferta de serviços das mais variadas profissões, foi nessa condição, que atraído pela prosperidade do Telheiro e pela consequente oferta de trabalho, oriundo dos Motrinos chegou ao Telheiro o Ti Garrana, onde durante longos anos, desempenhou o papel de malhador de ferro na oficina dos LOPES, com o passar dos anos e o vício a corroer-lhe o físico, acabou por passar os últimos anos da sua vida, sozinho numa improvisada choça, junto ao tronco de uma milenar oliveira, que ainda hoje existe, na tapada da fonte quase a chegar ao posto de aquilo que era a Guarda Fiscal do Telheiro.
Sem meios próprios de subsistência, vivia da caridade alheia e da boa vontade de um ou outro que lhe pagavam um copinho.
Foram épocas duras para todos, de uma maneira geral, as mercearias e tabernas ou vendas como também se designavam eram pequenos negócios familiares, na maioria dos casos repartidos com outras atividades, ou pequenos seareiros ou até assalariados de outros nas grandes herdades, como era o caso do Bento à época, carreiro no Azinhalinho, ficando durante o dia o negócio entregue à esposa.
O ti Bernardino Garrana apesar de entregue ao álcool e das precárias condições em que vivia era bom homem, respeitador e educado, sendo por isso respeitado por toda a gente, nesse dia e como de costume, foi já perto da hora de almoço até á Venda do Bento no Ferragudo, quem sabe aparecia alguém capaz de lhe pagar um copinho, quis o destino, que enquanto estava por ali, se armou trovoada tamanha, que foi a Chica Viola que apavorada com o medo dos trovões lhe disse, AÍ Ti BERNARDINO!!!!! Deixe-se estar aqui que eu e a minha Maria Antónia temos muito medo das trovoadas e assim sempre nos faz companhia, respondia o BERNARDINO, OH CHICA!!!!!! está descansada que pelo menos aqui não me cai a água em cima, a trovoada foi-se aproximando, os relâmpagos e trovões eram cada vez mais frequentes e fortes, aproximando-se a hora do almoço e incapazes de comer com medo dos trovões, trouxe a CHICA VIOLA as sopas de feijão, que estavam ao lume na panelinha de barro e que tinha preparadas para si e para a filha, comentando para o Ti Bernardino OLHE Ti BERNARDINO!!!! Coma as nossas sopas que a gente com a trovoada não somos capazes de comer, enquanto a Chica Viola e a Filha a cada relâmpago forte se benziam, AI JESUS SANTO NOME DE JESUS, SANTA BARBARA NOS ACOMPANHE!!!!! Impávido e sereno a tudo isto ia o Bernardino banqueteando-se com as sopinhas de feijão e o copinho de vinho, já bem comido e quase a terminar a refeição, num gesto tão próprio de quem não usa guardanapo, limpou os beiços as costas da mão, lambeu os lábios e exclamou, AI VIRGEM SANTÍSSIMA, ASSIM FIZESSE TRAVOADA TODOS OS DIAS!!!!!!
O orgulho nas nossas origens é aquilo que nos diferencia e nos engrandece a Chica Viola e o Bento eram os meus pais e a Maria Antónia a minha irmã.
“Texto Isidro Pinto”
“Foto da Net”

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

A TI ANA ROLA E O Dr. RAMOS

 A TI ANA ROLA E O Dr. RAMOS


Não serão já muitos mas alguns conterrâneos haverá que ainda se recordam da tão carismática figura do doutor Ramos, médico veterinário de reconhecido valor e muito admirado nos concelhos de Reguengos, Mourão, Moura, não só pelas suas capacidades profissionais mas também pelo seu elevado sentimento humanista, muitas eram as vezes que aos pobres nada cobrava. Monsaraz desde os tempos mais remotos sempre viveu condicionada pelos difíceis acessos, uma das fornas de o minimizar era a utilização do gado muar, quase todas as famílias tinham um burro, para carregar a lenha, para ir buscar a água ou para lavrar as íngremes encostas, de onde com muito esforço arrancavam à terra, as batatas, os grãos, as favas e algum trigo ou centeio para o fabrico do pão. Era do conhecimento geral que não se podia deixar fartar os burros de palha de favas, creio por lhe causar obstipação podendo leva-los à morte. Por um pequeno descuido deixou a Ti Ana Rola que a burra comece mais palha de favas do que devia, passados já alguns dias e com a burra a piorar de dia para dia, não tiveram mais remédio que chamar o Dr. Ramos, que após imenso e árduo trabalho conseguiu salvar a burra. Aliviada por ver a sua burrinha fora de perigo pergunta a Ti Ana Rola ao Dr. Ramos, Dr. Quanto lhe devemos ? Deixa estar não te preocupes não é nada é de graça respondia este. Não cabendo em si de contente exclamou a Ana Rola, BENDITO SEJA O SR. DOS PASSOS QUE SE SALVOU A MINHA BURRINHA. Ai foi o Sr dos Passos !!! Eu é que me fartei aqui de trabalhar e agora foi o Sr. Dos Passos !!! vai lá buscar o dinheiro para me pagares que acabou-se o de GRAÇA dizia o Dr Ramos.

Obrigado amigo António Rodrigues (Marreneco) por mais este pedaço de história das nossas gentes.

"Texto e foto de Isidro Pinto"

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

A LENDA F O MILAGRE DO SENHOR JESUS DOS PASSOS

 


A Lenda do Milagre do Senhor Jesus dos Passos, em Monsaraz

Nos finais da centúria de 1500, uma rapariga chamada Maria Roseta, morava numa casa pequenina junto ao Castelo da Vila de Monsaraz, deixada por uma tia, vindas não se sabia de onde e, após a morte dessa tia, ficou a morar com o seu gato preto! 

A Maria Roseta era muito pobre e franzina e toda a gente dizia que era feiticeira, porque sabia rezas e mezinhas, com as quais curava muitas maleitas, mesmo assim, não era respeitada pela maioria dos montesarenses e sempre que saia à rua era alvo de troça, risos, assobios e palavras ofensivas, mas muitas dessas pessoas ou familiares, quando se sentiam mal, em segredo, corriam a sua casa pedir-lhe ajuda e ela tratava todos os males com muita sabedoria e dedicação! 

No dia 9 de Junho de 1594, era Corpo de Deus, e os ranchos já andavam a ceifar pelos campos de Monsaraz, cerca das 10 horas, quando as foices entravam pelas searas, o sol, repentinamente, desapareceu, os ceifeiros e ceifeiras ficaram assustados, pararam o trabalho e os seus olhos virararm-se para o lado do astro rei e viram uma nuvem negra que o ofuscava e não deixava passar a luz! 

Os montesarenses ficaram aflitos sem perceber o que se estava a passar e pensaram que, seria alguma trovoada sem trovões, mas naquele momento começaram a cair milhares de gafanhotos esfaimados que consumiam os cereais como se fosse fogo! O combate aos insetos começou, imeditamente com tudo o que tinham à mão, mas era uma luta sem tréguas e não demorou a juntar-se gente á procura de ajuda ou de alguma solução para tão grande problema, mas apesar de surgirem muitas ideias, devido á desconformidade de insetos, depressa caiam por terra! 

À medida que o tempo passava, a situação piorava, então, alguns montesarenses decidiram pedir ajuda à Maria Roseta, porque, diziam que ela sabia mezinhas para todos os males do mundo e não tinham outra alternativa! 

Um grupo de homens e mulheres, correram pelas ladeiras de Monsaraz a pedir ajuda à Maria Roseta, mas ela respondeu-lhe que não tinha nenhuma mezinha para aquele mal, não podia fazer nada, perante a decepção e a insistência ela disse-lhe que sabia quem podia ajudar, deviam fazer, imediatmente uma procissão aos campos de Monsaraz com Nosso Senhor Jesus dos Passos! 

Os montesarenses, não veneravam o Senhor Jesus dos Passos e interrogaram a Maria Roseta se a procissão não podia ser a outro Santo ou Santa? Ela afirmou que não, só podia ser o senhor dos Passos, então o povo já de cabeça perdida correram à Igreja da Misericórdia e a rezar levaram a imagem do Senhor dos Passos que tinha sido oferecida por D. Teodósio II, Duque de Bragança, poucos anos antes e, nem esperaram pelo Padre que quando se apercebeu partiu a correr com a batina ao pescoço atrás da procissão, mas assim que, a imagem do Senhor dos Passos saiu da Igreja da Misericórdia, os gafanhotos que já estavam nas terras de Monsaraz, começaram a morrer e quando avistaram a grande nuvém de gafanhotos, o sol quase, repentinamente, começou a brilhar, porque a nuvem desceu e os insetos começaram a cair mortos sobre as águas do rio Guadiana, sendo impedidos de alcançar os campos de Monsaraz! 

O povo de Monsaraz não conseguia perceber o que tinha acontecido e, surgiram muitas versões sobre o acontecimento, no entanto, no dia seguinte a vida rural voltou ao normal, mas não se falava noutra coisa e o povo foi-se apercebendo do risco que correram, ficando cada vez mais claro que tinha acontecido um milagre de Nosso Senhor Jesus dos Passos que, os tinha livrado da praga de gafanhotos, logo da fome certa, por isso, tinham de encontrar uma forma de agradecimento, então, marcaram uma reunião popular, onde decidiram que entre outros atos de fé, todos os anos depois das colheitas a Vila de Monsaraz, por gratidão, fazia uma procissão ao Senhor Jeusus dos Passos no segundo Domingo do mês de Setembro e, como sabemos, essa tradição ainda hoje se mantém! 

Ainda nessa reunião popular, alguém lembrou que, se o milagre tinha acontecido, devia-se à Maria Roseta, porque, ninguém imaginava pedir auxílio ao Senhor Jesus dos Passos, por isso, ela não podia ser  esquecida e, naquele momento, alguns lavradores de Monsaraz que estavam presentes, prontificaram-se a dar-lhe uma casa nova e todos os bens alimentares, até ao fim da sua vida! 

A partir daquele dia, os montesarenses que troçavam dela, mostraram-se arrependidos e, em vez de troçar, começaram a venerá-la e quando a Maria Roseta foi prestar contas a Deus, todos os montesarenses lhe prestaram homenagem de agradecimento, acompanhando-a até à sua última moradal 

A casa da Maria Roseta, já não existe, porque teve de ser sacrificada para dar lugar à construção das novas muralhas da Vila de Monsaraz, durante a guerra da restauração. 

Bem Hajam, Marias Rosetas!

Fim 

Podemos garantir que, existem documentos régios de Castela dessa época, a testemunhar a ocorrência desta, ou de outras pragas semelhantes, de gafanhotos nesta região e que deixaram as populações a passar fome, porque esses insetos devoraram os cereais e as pastagens do gado.

Texto: Manuel Correia 

Fotografia. Isidro Pinto

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

O BUNDA E A LEBRE DA RUA DIREITA

 

O Bunda e a lebre da rua Direita




 Ao falar de vizinhos apenas com uma casa de permeio morava o meu amigo Bunda, bom homem com quem mantive e mantenho uma óptima relação de amizade. Era mais uma noite de Agosto de um calor insuportável em que a única forma de amenizá-lo era abrir as portas, não só para tornar o serão mais aprazível mas também para que as casas refrescassem um pouco para o dia seguinte, não querendo perder pitada da televisão estava o Bunda e a família, ti Rosa sua esposa e os filhos Domingos José, Francisco, e José Domingos na sala de entrada, que normalmente neste tipo de habitações alentejanas é também sala de estar. Na televisão o José Mestre Baptista toureava já o segundo toiro, da corrida do campo pequeno, a falta de nitidez do velhinho aparelho era notória queixava-se insistentemente a ti Rosa ó Tonho és sempre a mesma coisa estou farta de te dizer para ires acima do telhado arranjar a antena e tu nada, agora, está a dar a tourada e isto só se vê esta chuva, o Bunda fazia ouvidos de mercador. Apesar de tudo isto, a atenção era redobrada, apenas o José Domingos havia adormecido no camalho, as portas estavam abertas de par em par e para que os mosquitos não entrassem a única luz existente era a da televisão, a duzentos metros mais acima mais ou menos junto á porta do Lumumba acabava de chegar um casal de turistas de meia idade e que, supostamente, haviam morto uma lebre na estrada que se apressaram a tirar do porta bagagens, para estupefacção de ambos assim que o abriram a lebre ó pernas para que te quero e de um salto em escassos segundos já corria rua abaixo, completamente desorientada corria agora na direcção do castelo, a perseguição era feita não só pelo casal mas também por muita outra gente que aquela hora estava sentada na rua ao fresco, a estupefácção era geral, até um pachorrento cachorro que dormitava junto ao pelourinho não quis acreditar no que os seus olhos viam e não demonstrou o menor interesse de correr atrás dela, até que não se sabendo bem porquê resolveu a dita lebre entrar portas dentro para a casa do Bunda, imagine-se o espanto e confusão a perseguição era agora feita entre mesas e cadeiras e apenas com a luz que emanava da televisão. Não me recordo como terminou este episódio mas suponho que nada bem para a lebre.

"Texto e foto Isidro Pinto"

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

HOMENAGEM À MINHA TERRA NATAL MONSARAZ.

 HOMENAGEM À  MINHA TERRA NATAL MONSARAZ.

(Casa do Dr. Queimado)


QUANDO DEUS CRIOU O MUNDO

PARA SUA OBRA OBSERVAR

SUBIU AO CIMO DE UM MONTE

PRA TODO O MUNDO AVISTAR

MAS O MONTE ERA BAIXINHO

O QUE A DEUS NÃO SATISFAZ

E DIZ PARA O MONTEZINHO

TU UM ALTO MONTE SERÁS 


E O MONTE NESSE MOMENTO 

CRESCEU COM TAL PRESTEZA

QUE DEUS POSTADO NO CIMO

VIA TODA A NATUREZA

COM TÃO LARGO HIRIZONTE

DEUS FICOU MUITO ENCANTADO

E DISSE SERÁS UM BELO MONTE

E POR MIM ABENÇOADO 


UM ALTO MONTE SERÁS 

E MUITO BEM POVOADO

DEUS AINDA ACRESCENTOU

E O NOME ENTÃO SE FORMOU

DESTA MINHA LINDA TERRA

QUE TANTA BELEZA ENCERRA

E SE CHAMA MONSARAZ 


NASCIDOPOR DIVINA GRAÇA 

HÁ EM TI MUITA BELEZA

ÉS UMA PÉROLA ENGASTADA

NO COLAR DA NATUREZA

ÉS UM CANTEIRO PERFUMADO

COMO OUTRO NÃO HÁ IGUAL

NESTE MEU PAÍS ADORADO

QUE SE CHAMA PORTUGAL


OH MONSARAZ

TU ÉS TERRA ABENÇOADA

SÃO PARA TI OS PRIMEIROS

SORRISOS DA MADRUGADA

OH MONSARAZ 

TU ÉS DA PÁTRIA UM ALTAR 

ONDE ALMAS DE HERÓIS 

A HORAS MORTAS VÃO REZAR

OH MONSARAZ 

ÉS A TERRA ONDE EU NASCI

E POR MUITO EU TE AMAR

FIZ ESTES VERSOS PARA TI


AUTOR: FRANCISCO CAEIRO QUEIMADO.


OBRIGADO Amigo José Jose Pereira por teres sido tão fiel depositário de esta pequena relíquia que tiveste a amabilidade de fazer chegar até mim. Nunca é  demais recordar-mos este pequeno grande homem o Dr. Queimado

segunda-feira, 17 de maio de 2021

A LENDA DO OUVIDOR DA VILA DE MONSARAZ


A lenda do Ouvidor da Vila de Monsaraz 

No ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e trinta, a Vila de Monsaraz estava no auge em termos sociais e económicos, sendo considerada a jóia da Sereníssima Casa de Bragança, repleta de gente influente, fidalgos, escudeiros e lacaios, alguns frequentavam a Corte do Rei D. João III, o Piedoso, mas devido à sua fama, também atraía muitos indesejados, maltezes, vadios e malfeitores que vagueavam em grupos pelo reino, em busca do que podiam apanhar sem trabalhar!

A Villa de Monsaraz, nessa época, estava a tornar-se uma terra sem lei e chegavam muitas queixas à Corte a pedir que fosse feita justiça, porque a Ouvidoria não tinha Ouvidor, facilitando a criminalidade, com a agravante da proximidade da fronteira com Castela, por onde entravam e saiam muitos criminosos! 

Depois de confirmar o fundamento das queixas, o Rei D. João III, nomeou João de Sousa que, tinha fama de ter mão pesada contra o crime, ganhando com isso, o apelido de "sem coração" por ser impiedoso, para Ouvidor da Ouvidoria da Vila de Monsaraz! 

Um Ouvidor era a designação dos magistrados ou juízes que superintendiam na justiça das terras senhoriais! As suas funções eram semelhantes às dos corregedores nas terras diretamente dependentes da Coroa! As terras sujeitas a corregedores eram chamadas comarcas ou correições e as sujeitas a ouvidores eram chamadas ouvidorias, como era o caso da Vila de Monsaraz, visto ser uma Vila senhorial, da dita Sereníssima Casa de Bragança!

Quando o Ouvidor, ou juíz João de Sousa chegou à Vila de Monsaraz, nos finais do segundo decénio de 1500, confirmou que, a justiça estava um caos, a cadeia era assaltada e, os presos libertados por grupos de malfeitores, portugueses e castelhanos, sendo necessário começar, imediatamente a repor a ordem e começou a fazer julgamentos apressados, bastava um homem bom, apresentar uma queixa, fundamentada e com as devidas testemunhas,  se fosse caso de sangue, ou tentativa de homicidio, a sentença era a condenação à Forca, sem fazer mais averiguações, como era obrigação do Ouvidor! 

A justiça do Ouvidor João de Sousa, o "sem coração", começou por ter bons resultados, porque obrigou muitos vadios e malfeitores a afastarem-se da Vila de Monsaraz e, aliviou a criminalidade, mas isso não alterou o seu método de fazer justiça, era Ouvidor, mas não estava para perder tempo a ouvir o que devia ouvir, dizia que, havendo testemunhas dos crimes, embora em muitos casos compradas, não era necessário ouvir ou investigar mais nada, condenando eventuais inocentes à Forca e, não aceitava os pedidos dos suplicantes, mesmo dos padres que, muitas vezes tinham provas que, os condenados estavam inocentes! 

A justiça do Ouvidor, depressa caiu na  injustiça, porque, aumentavam os que eram enforcados estando inocentes e nesses casos, havia pais que deixavam as casas cheias de filhos desamparados, com fome, revoltando qualquer homem justo, mas em nenhum caso o "sem coração" aceitava pedidos de clemência, mesmo que fossem de fidalgos ou dos padres de Monsaraz! 

Enquanto os erros da justiça do Ouvidor foram sobre os mais pobres que, por medo, as famílias pouco se queixavam, não chegavam à Corte,  mas quando bateu à porta dos mais influentes e o Ouvidor não atendeu aos pedidos de clemência, nem de mais investigação, começaram a chegar queixas ao Rei D. João III que, não dava resposta, porque achava que o Ouvidor estava fazendo um bom trabalho na Vila de Monsaraz e, os queixosos que, eram cada vez mais, secretamente, organizaram um grupo de apoio e planearam o afastamento do Ouvidor da Vila de Monsaraz!

O grupo dos queixosos tinha aliados do clero, vários padres, amigos e familiares na Corte que, começaram a investigar o passado do Ouvidor, ou seja, a procurar a existência de atos que o comprometessem e, não foi difícil descobrir que, tinha processos judiciais arquivados, por adulterar com mulheres casadas que, era crime, embora não lhe tivesse acontecido nada por falta de provas, mas ficaram a saber que, muito fácilmente perdia a cabeça por mulheres bonitas, logo, seria este o caminho que tinham de seguir para o apanhar em falso!

Nessa época, entre outros, residia e trabalhava na Vila de Monsaraz um tabelião, casado com uma mulher muito mais nova, era alta, esbelta, muito linda e vaidosa, com porte duvidoso que, não se poupava a expôr-se nos seus passeios pelas principais ruas da Vila, virando do avesso, a cabeça de muitos homens!

Não foi necessário muito tempo para o Ouvidor perder a cabeça pela mulher do tabelião, a tal ponto que, não se importava de dar nas vistas, talvez por se achar muito poderoso, uma situação que dava jeito ao grupo dos queixosos, os quais, com muito cuidado, começaram a registar, com testemunhas influentes, os encontros do Ouvidor com a mulher do tabelião, a data, horas e lugares onde se encontravam, reforçado com a acusação de desleixo pelo seu dever de Ouvidor que, depois era mal desempenhado, com erros e condenações de inocentes à Forca! 

As provas foram reunidas durante meses e bem organizadas, com testemunhas muito conceituadas, homens bons, padres, lacaios, lavradores e outros, sendo o processo enviado ao rei D. João III debaixo de grande segredo, na acusação escreviam que, o Ouvidor andava a adulterar com a mulher de um tabelião de Monsaraz e devido a isso, não cumpria a sua missão, condenando inocentes à Forca, devido a não ouvir ou investigar o que tinha de ouvir, pelo que,  pediam o seu afastamento da Ouvidoria da Vila de Monsaraz! 

O processo chegou às mãos do Rei D. João III, com o parecer de altos magistrados da Coroa, com indicação que o Ouvidor era recorrente e com a proposta de ser afastado da Ouvidoria da Vila de Monsaraz, mas o rei, não só o mandou afastar do cargo, como também, emitiu uma ordem de prisão, com indicação de ser julgado pelos crimes de que era acusado, sendo o Ouvidor João de Sousa encarcerado na cadeia do Castelo de Monsaraz! 

A prisão do Ouvidor chegou, imediatamente aos ouvidos das gentes da Vila de Monsaraz, ficando a maioria muito contentes, porque, não sabiam quando podiam ir parar à Forca, por qualquer acusação falsa, como tinha acontecido a alguns montesarenses, mas começaram a dizer que, era uma prisão de fachada, para acalmar a população, porque, sabiam que na cadeia não lhe faltava nada, tinha tudo do melhor e, vários guardas, noite e dia a guardar a cadeia para o proteger contra inimigos que lhe juravam pela pele, por ter condenado à forca, filhos, familiares ou amigos que, estavam inocentes, ou tinham cometido pequenos crimes que, não podiam ser puníveis com a forca e ouvia-se que, lhe rezavam muitas pragas e as feiticeiras faziam mezinhas para tirar o coração ao sem coração! 

O seu bem estar na cadeia, era comentado pela Vila de Monsaraz e, as ameaças contra ele, aumentavam dia a dia, ficando a sua segurança em causa, pelo que, após ser dado conhecimento ao Corregedor da Corte, foi decidido que seria transferido para a prisão da Corte em Évora! 

A saída do Ouvidor da Vila de Monsaraz para Évora foi marcada, secretamente para uma noite pelas duas horas da manhã, quando a Vila estivesse a dormir e, não dessem por nada, mas nessa noite, quando o capitão da guarda o foi acordar para se preparar e partir, o Ouvidor estava morto sobre a cama! 

O capitão da guarda que fazia parte da escolta, foi a correr chamar o alcaide e o físico (médico) do castelo, este para verificar se ainda havia sinais vitais, uma vez que, achava que o corpo do Ouvidor ainda estava quente e, quando o físico e o ajudante, enfermeiro, o viraram e a luz dos archotes o iluminaram, os presentes, ficaram paralisados a olhar uns para os outros, sem dizerem uma palavra, por fim, o físico exclamou: - Sem coração! Tinham arrancado o coração do Ouvidor! 

Quando foi comunicado ao alcaide que, estava do lado de fora da cadeia, este não queria acreditar, depois de se inteirar da situação, começou a interrogar os guardas que estavam de serviço, separados, um a um, e contaram todos a mesma versão, a porta da cadeia estava fechada até o capitão ali chegar e, antes nunca se abriu, por isso, ninguém lá podia entrar e, acabavam exclamando que, decerto, se tinha suicidado, não havia outra explicação, mas ainda não sabiam da ausência do seu coração!

No interrogatório, o alcaide perguntou aos guardas o que tinham visto e ouvido antes da triste descoberta e todos responderam que tinham visto o Ouvidor a deitar-se na sua cama depois da ceia, mas nenhum tinha ouvido nem gritos nem gemidos, nem ai, nem ui, mas todos diziam que, tinham visto um grande gato preto com uns olhos que iluminavam a noite, nunca visto no castelo, a sair por entre as grades do portão da cadeia e que se tinha sumido na última torre do castelo a da esquerda, alguns guardas, diziam que tinham visto mais do que um gato, fazendo o mesmo percurso! 

Depois das respostas dos guardas, o alcaide fez um relatório do sucedido e escreveu uma carta a pedir instruções e ajuda muito urgente, por estar perante um caso insólito, um grande mistério e, mandou dois mensageiros a Évora, onde chegaram cedo e entregaram os documentos ao Corregedor da Corte! 

Tratando-se da morte de um magistrado e do tipo de crime, ainda nesse dia, à tardinha, chegou uma equipa com os melhores investigadores e físicos da Corte, ao castelo de Monsaraz, os quais, quando se inteiraram sobre o que tinha acontecido, ficaram incrédulos e quiseram começar logo a trabalhar, isolaram a área da cadeia, para não ser devassada e passaram o resto da tarde e a noite a interrogar os guardas e toda a gente com acesso ao castelo, e de manhã, começaram a analisar ao milímetro o espaço da cadeia e do castelo e, no dia seguinte, alguns passaram para o exterior a interrogar os montesarenses residentes nas imediações, sobre o que tinham ouvido ou visto de estranho, relacionado com o caso, nos dias anteriores, mas passadas quase duas semanas a investigar, estavam muito dececionados no ponto de partida, sem descobrir nada de novo, ninguém tinha visto nem ouvido nada, restava-lhe a confirmação que, quem tinha assassinado o Ouvidor tinha passado pela torre que os guardas referiam, onde estavam alguns vestígios de sangue, mas não havia sinais do coração do infeliz! 

Os investigadores e os físicos escreveram nos relatórios que, a morte do Ouvidor devia ter sido concertada entre os guardas de serviço, muito bem concertada, mas não conseguiam provar, porque, tinham sido interrogados até à exaustão e todas as respostas batiam certas, o coração e o sangue tinham desaparecido e, depois de virar a Vila de Monsaraz do avesso não tinham encontrado nada, a não ser na dita torre, mas não escreveram uma palavra sobre os gatos pretos e finalizaram escrevendo que, o processo ficava em aberto, esperando desenvolvimento sobre o misterioso crime!

 Quando a notícia da morte cruel do Ouvidor alastrou pela Vila de Monsaraz, toda a gente ficou chocada, não era aquele o castigo que desejavam, embora, ele tivesse condenado muitos inocentes à forca, mas o crime era muito hediondo e assustava muita gente! 

Quando começaram a ouvir dizer que, os guardas do castelo tinham visto os grandes gatos pretos a sair da cadeia e que se tinham sumido na torre da esquerda, na qual tinham encontrado sangue do Ouvidor, não tiveram dúvidas que os criminosos estavam descobertos, tinha sido obra das feiticeiras, decerto, o Ouvidor tinha condenado à forca, algum filho ou outro familiar inocente e fizeram justiça pelas suas mãos, por isso, a torre do castelo de Monsaraz onde os gatos pretos se sumiram naquela noite do crime, ficou a ser conhecida pela torre das feiticeiras! 

O Ouvidor foi sepultado sem coração, o qual, nunca mais foi encontrado e, ainda se encontra perdido, dentro, ou nas imediações do castelo de Monsaraz.

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Fotografia: Isidro Pinto